uma mulher não mais abandonada.

Cada vez mais, somos convidadas a rejeitar toda essa carga de imposições que o mundo capitalista despeja sobre nós. A vida tem sido submetida ao ordenamento econômico quando o caminho deveria ser o oposto. Pensar uma economia de bem-comum, de trabalho que contribua para o bem-viver de cada um. Para o bem-estar social, para todas e todos que trabalham e os filhos e filhas de quem trabalha. O trabalho, nesse caso, longe de ser uma escolha forçada, ainda no meio da nossa juventude, também seria reestruturado. Ele não seria a síntese da exploração das nossas capacidades produtivas, seria o meio pelo qual conseguiríamos recursos suficientes para vivermos a vida mesmo em abundância. Nesse modelo, a tendência de sermos sujeitos alienados do processo econômico não faria mais sentido, pelo contrário. A consciência de si enquanto classe e enquanto sujeito seria necessária e incentivada, inclusive.

O problema é que ainda não estamos perto dessa realidade. Tentativas existem para nos aproximarmos do que é ideal. O movimento global se fortalece com muito jogo de cintura e persistência, apesar dos retrocessos avassaladores, em todos os flancos políticos. A noção de dignidade e de direitos humanos parece ser reelaborada numa velocidade impossível de nós, reles mortais, nos atualizarmos. Nesse sentido, no tempo presente, somos convocados a olhar um pouco mais atentamente para nós mesmos e, após esse reposicionamento, tentarmos propor algumas negociações sobre recuos e avanços diante do que estamos olhando. Sobre quanto de nós conseguimos entregar para que as conquistas sociais sejam maiores sem nos flagelarmos tanto, sem solaparmos a integralidade da nossa saúde.

Como li em algum livro esse ano: nós nunca tivemos tanta consciência do nível de exploração mundial sobre a força de trabalho da humanidade e sobre a natureza, ressignificada em “recurso” capitalista. Esse saber nos demanda uma contrapartida. Ou muitas. Entre essa quantidade de saídas ainda não viabilizadas, a gente, pessoalmente, precisa se localizar e guardar um pouco desse cuidado e preservação pra dentro da nossa casca. Como um modo de garantir a manutenção da nossa vida desassociada de qualquer elemento externo para saber o que se tem disponível para lançar-se ao mundo. É a partir de onde eu habito em mim. Sei que estou me repetindo. É que preciso reforçar essa percepção, essa verdade em muitas frases para que eu não desista de acreditar. Para que o ânimo brote e se enraíze nesse modo de reafirmar a vida e as lutas pela busca de uma vida digna em sua inteireza, e não pelas lentes do capitalismo.

Comunidade nenhuma teria ou terá efeito de organização comunitária se esse elemento for ignorado: o da subjetividade emancipada. Se formos minando nossos processos de individuação que, se bem “canalizados”, poderiam contribuir para dinamitar muito daquilo que nos prende e nos amedronta afetivamente. Que gera uma desistência em massa na fé nas lutas mais radicalizadas e na disposição pela transformação social para o comum mais horizontal possível.

Todos os dias somos apresentados a formas de resistirmos mais afetuosamente a tudo. E isso é bom. Aprender sobre afeto, amor(-próprio e comunitário). Aprender e sentir o que o amor pode fazer nas nossas vidas a partir de escolhas nossas, e não pela iniciativa de outro. Estudar sobre isso, ler livros, páginas físicas mesmo, para além de textos de opinião com um coração ao lado que, sim, tem sua relevância a partir das inúmeras formas de inteligências e evidentes limitações de tempo e acesso à informação no país. Eu sei. E sei que é preciso ir além. Repensar as rotas e os tempos.

Eu acredito que toda forma que nos conduz a esse apaziguamento pessoal para um relaxamento de si pode ser terapêutico, tendo continuidade ou não. Entendo terapia como uma atividade que produz um espaço de silêncio interior cujas condições de produção dessa paz interna geram segurança suficiente para encararmos nossa própria mente. A terapia é um movimento ou iniciativa que dispersa o ruído, o barulho. Apaga determinadas arestas e formatos para que a gente possa se permitir pensar de forma desmedida. Terapia, como encaro, é esse efeito de insistir em olhar para si e buscar, a partir de condições externas da gente, esse lugarzinho tão particular ainda sem intimidade suficiente do lado de dentro. Se reduz os danos e faz bem, é uma terapia e eu acho muito justo que cada um encontre a sua. Abordagens psis, medicina psiquiátrica não são suficientes para todas as bilhares de pessoas no mundo, enquanto “abordagem”. Psicanálise também não, ainda que não se proponha exclusivamente a essa função. Essas oficialidades não suprem, não dão vazão ao que cada um deseja extravasar ou até mesmo regular, conviver melhor, superar, enfim. Existem outras formas. Muitas outras. O Francisco, vizinho da Fabiana, começou a cuidar voluntariamente do jardim da amiga vizinha. Diariamente, às 6h da manhã. Fez dessa prática um hábito para regular suas angústias, fazer ressoar seu silêncio: terapia. Quem dirá o contrário? A Ivone, professora de inglês há trinta anos, aprendeu a repetir cânticos indianos numa concentração impressionante, tudo pelos tutoriais do youtube. Três vezes por semana, ela garante esse rito e, em seguida, engata um croché. Trabalha para ela. Só ela e seus fios: terapia. Eu não tenho nem dúvida.

Com esses e tantos outros exemplos ordinários eu digo que terapia, pra mim, é um tempo com a gente mesmo nesse mundo. Seja para nos apaziguar, seja para revolver a terra que nunca fora sequer tocada. É como a gente não larga da nossa própria mão. Uma tentativa de amparo. Um tipo de autorregulação. Como quando alguém reza e junta as mãos, buscando se sustentar e se elevar. A reza pode ser muito terapêutica, pra quem reza. A pessoa está lá, com as duas mãos unidas ou coladas a outra parte do corpo e a meditação, adoração, pedido, graça acontece naquele universo particular. Mais abstratamente falando, terapia é esse voltar para si e fazer disso o seu movimento único. Ninguém nunca fará a mesma terapia que a sua, ninguém fará sua terapia por você e essa exclusividade não é contada para o mundo exterior, não há substituição. É um apelo seu para você mesmo. O som que o silêncio produziu, o modo de fazer movimento e força de sustentação é irrepetível e se registra por muitas linguagens e inteligências.

Nessa toada de entendimentos, vou forjando o que importa. Escrever é como eu não me abandono. Tenho iniciativas outras para outras formas de relacionamento – comigo e meus desconhecidos – bastante necessárias para minha caminhada, mas essa aqui não tem explicação, não busca agradar ninguém. Acho que sequer seria compreendida por alguém além de mim, dado o objeto da escrita. Escrever, também não é como estar no divã, porque ali é lugar de muito desconforto. E ainda pago por isso, o que faz muito sentido isso e todo os outros investimentos destinados a esse processo. Lá é aonde vou para ficar sem um colo antigo meu (nosso?) de muitas gerações. Escolho estar sem o aconchego do autoengano que a gente inventa meio que pra se preservar dos enredos que a gente tece sem muita consciência dos rumos dessas histórias. Decisão crucial para eu saber que também preciso me ocupar de outras dimensões de mim, em outros tempos da minha rotina. Lá, na salinha do Pici, por exemplo, é onde meu sofrimento sofre, ainda que confrontado pelas minhas barreiras de contenção. Mas sofre, cada vez mais, com menos pudor. E com mais serenidade. Isso acontece porque o discurso do mestre fica cada vez mais questionável, mais fragilizado/vulnerável e aí, posso relaxar no que me dói. Depois de lá, é que a “terapia” vem para ser decantada, bem dizer. Bom, no meu caso,  a complementaridade se faz oportuna e muito presente a partir desses instantes: escuta* e escrita.

Sobre escrever. É colocar a ponta da caneta no caderno, de preferência sem pauta, ou os dedos num teclado e vai. E vou. Paro, retomo, apago. Paro e esqueço que uma frase ficou em aberto enquanto já estou em outro arquivo falando de outro assunto. E assim eu vou garantindo as memórias de alguns caquinhos meus dentro das palavras que saíram cada uma no seu tempo.

Como eu entendo que o tempo que eu vivo não é meu, acho um absurdo me sentir forçada a escrever para mim mesma. Esse tempo é da conta do espontâneo e da necessidade. Essas palavras também se complementam, mesmo parecendo paradoxal. Percebi que, escrevendo, consigo subverter a lógica de produção mercantil, que eu abomino, e produzo um tempo exclusivo para a minha escrita. Que, por sua vez, não terá utilidade nenhuma. Ela não tem qualquer valor, não tem serventia para o sistema. Não é, tampouco, um relato de caso. Ao conseguir acessar essa instância improdutiva, digamos assim, garanto um tempo dela, nem é meu. É mais ou menos como encaro esse momento que eu dedico a mim sem saber bem como vou me comportar. Nem sei dizer. Chega me emociona. Não me abandonar gera um certo tipo de orgulho de mim mesma que é bonito e raro. É como quem consegue pegar a coragem com uma pinça para dizer que ela pode ser maior, se exercitada, na medida em que eu me educo para a emancipação de mim e dos meus apegos, do entendimento menos cifrado das minhas neuroses. Depois que decidi usar esse recurso tão revelador de mim, escrever tornou-se um hábito saudável na minha rotina confusa. Esse momento precisa de espaço na hora que ele quiser. Eu preciso desse espaço que me acontece de forma abrupta. Quase como um desafio subversivo com os tempos do mundo, porque eu estou completamente concentrada em insistir em mim. Uma insistência que traduzo numa autorização para brincar com essa coragem que mais parece massinha de modelar. Uma brincadeira que só me permiti tentar depois de velha. E velhice eu tomo como um elogio potente. Aprender a brincar requer uma outra lida com esse Tempo que me toma sempre que abro meu corpo para as dúvidas todas que me rondam. Posso mergulhar no mistério que elas têm a oferecer, garantindo que não é possível estar segura sobre a manta do pragmatismo. Ir atrás de muita segurança, pra cada passo dado, segura demais a própria vida. Não quero. Agora, consigo conversar com o imprevisto depois que o susto some. Eu não quero mais antever tudo. O medo se desmancha e perde o tamanho que antes eu lhe atribuía. De fato, ele não some e eu aceito essa limitação minha. Mas não quero ser refém dessa condição. As ideias se alargam. Posso me valer das hipóteses, ao invés das verdades que cabem para alguém, nem sempre para mim. Nem tudo é pra gente. Nem tudo tem cabimento. Eu gosto da verdade como um norte, não como rigidez, como diagnóstico absolutizante. A coragem brincante precisa ser demandada, caso contrário, ela fica lá dentro da caixinha, mofando, se apequenando. Essas ambivalências são incríveis. Gosto de me sentir humana mesmo. Ser humana me permite escrever. Eu acho que esse é um dos grandes privilégios da nossa espécie. Que eu permita me usar nessa capacidade. Tudo até aqui vale uns escritos. Eu nem comecei.

Quando guardo demais esse querer escrever, as letras se esvaem lentamente, meio que pedindo socorro. Não convivo bem com esse pedido. É uma sensação péssima, porque eu sei que elas não voltam mais. Eu não volto mais no tempo. Eu precisarei criar novas, aproximá-las a outras e aquela frase, a ideia primeira, pode ser retransmitida para outra ideia irmã. As palavras, geralmente, querem sair e pousar no papel, ou na ideia de um papel. Uma relação ambígua entre deixar transbordar, mas nunca preencher. Sempre falta um algo mais. Não cessa de se inscrever algo novo, antigo. Esse aparecimento pra superfície sou um eu que consigo acessar. A escrita é essa superfície registrada, havendo camadas sensoriais que transitam em todo buraco sem minha aprovação formal. Imagem, som, representações. São muitas inscrições. Tem uma que não se define, não se apreende em relevo nenhum. É de uma ordem cujo registro não se revela, se renova. As tentativas continuam, mas tenho percebido que seguir nessa investigação parece ser tão fascinante – e revelador! – quanto prever qual a natureza desse ouro precioso. A escrita me dá pistas, porque tenho deixado rastros anteriores. É preciso lê-los. É louco pensar assim, mas é assim que o pensamento vai se construindo pra me fazer entender que esse momento exato, de agora, é muito importante pra mim. Importa exatamente porque é trivial, é uma banalidade que eu faço e cresce só pra mim, numa espécie de um a um que eu criei. Gera prazer, inquietude, nunca desistência. É do não-saber que brota minha escrita. Não é do que está dado. O que eu sei, não me atrai tanto. Afinal, eu já (acho que) sei. Não preciso documentar, expor. O saber me deixa atenta ao suposto saber que é muito mais próximo de mim e das minhas presunções. Eu acho que tudo já foi escrito por alguém, está tudo em algum lugar. Melhor escrito, descrito, explicado. Mas eu escrevo pra mim, pra tentar margear um “não” que está em mim e que não cabe nas palavras de mais ninguém, ainda que sejam mais atraentes e assertivas (e coerentes). É como se eu fosse um não desse Todo. E acho que todo mundo tem os seus nãos, mas parece que a gente ainda não sabe bem o que fazer com esse fato. “Enquanto houver espaço, corpo, tempo e algum modo de dizer não”, Belchior canta, eu escrevo e cada um permanece sendo seu cada qual.

Escrever como se fosse um espelho interno. Essa ação de ajuntar palavras, que não estão ainda ajeitadas enquanto correm ou se escondem na cabeça, tem esse impacto que eu tentei explicar. Na minha vida, é como se ela ocupasse uma centralidade bem colada a outras necessidades básicas. Necessidades instintivas, para ser mais dramática. Escrever não é nem melhor, nem pior que outras necessidades. Não é mais importante que comer ou respirar, evidentemente. Mas também não é menos. Que isso não pareça exagero. Afirmo sem titubear. Porque essa invenção ~terapêutica~ me nutre e me oxigena de outra forma e termos uma rota alternativa é afrontoso no planeta do cansaço. Eu não quero mesmo só o pão e a terra para viver. Para viver com a dignidade que eu defendo pra mim e pro mundo, a noção de ~necessidade básica~ muda de perspectiva. Na minha rota, eu preciso escrever. Assim como outros precisam correr, outros, plantar, aprender a cantar, o que quer que seja. Tem gente que chama isso de cura. Nada contra. Essa coisa de curar e de querer se curar é de uma ordem ainda mais profunda de cada um que eu não me atreveria a escrever sobre esse tipo de conquista ou de busca. Minhas reflexões são mui limitas e não alcançam essa grandeza (de julgamento). Busco aconselhamento em muitos outros povos da floresta que compreendem o sentido de cura a partir de um lugar no mundo que não é o meu e esses ensinamentos me dizem que a cura vendida no ocidente já começa distorcida só por isso: comprarmos um modo de permanecermos produtivos nesse mesmo mundo que produz crueldade. Cura vira marca ou jornada e, por ora, me assusto. Entrecortada por essas fronteiras subjetivas, sigo achando mais prudente entender que, nessa terra onde piso, uma coisa é terapia e outra coisa é a intenção de querer se curar ou de se sentir curada. A cura busca o trauma, as terapias buscam por você mesmo e nem isso nos garante nada. Muito menos status de cidadão saudável. Essa combinação deve ser um encontro avassalador quando tais vias de movimentação e de interesses se cruzam. Mas eu paro por aqui.

Não considero nem que a cura psíquica de qualquer dor devastadora, luto, rejeição, sei lá, seja definitiva, nem que o que se elabora em terapia também seja. Insisto, não acredito que essas sejam as únicas vias de lidar com nossa vida interior. A inventividade é maior e não consegue ser abarcada em qualquer achismo meu. Não interessa o que eu acho. Só digo que não quero afinar uma função tão objetiva assim. Não quero função pras minhas coisas, pelo menos isso. Tem dias que escrevo só porque não tenho mais nada para fazer e a procrastinação e o ócio absoluto geram culpa. Então, ande escrever qualquer coisa aleatória, sem o rigor da intenção. O caldo é grosso, tudo se mistura. O fogo dessa panela não é só nosso. Então, se eu, bem do alto da seleção dos meus privilégios – espero eu, em ruínas – sofro de um jeito inexplicável ao ponto de todas as palavras serem drenadas de mim, sem eu sequer perceber, não posso achar que sugerir ~destinar um tempo para olhar para si e silenciar~ seja uma proposta razoável para quem tenta dormir debaixo de viaduto, de barriga vazia. A angústia é de outra ordem. Não é por aí. Falar sobre autoconhecimento ou sobre a evidente “sobrecarga mental” chega a ser ofensa, ainda que seja ainda mais necessário enquanto interesse militante, é como penso. O dito pode ser ofertado de outro modo.

Pensar sobre esse sofrimento específico e conjuntural, que beira a desesperança e pula entre incapacidade individual e abatimento social, não tem como ser aplacado facilmente dentro de mim. Muito embora, penso que quero-preciso manter essa sensibilidade latente, inquieta, pois ela aproxima e faz do pensamento, impulso pra entrar na contra mola que tenta quebrar a engrenagem toda. Escrever fica lá longe, me chamando como quem grita por um momento de respiro dos sufocos mentais e das pressões objetivas, do dia a dia, que me tomam.

Escrever tudo isso, por exemplo, não é fácil. Organizar tudo através dos dedos, apagar, acrescentar. Selecionar. O juízo fica meio perturbado com tanto pensamento paralelo que advém dessa vontade inicial de pensar minha escrita como um ritual de refúgio e de investigação do que passa me destruindo. Daquilo que desfila e faz pose pedindo para ser notado. Ritual tem muito valor por aqui. Ritual é rotina e criação de hábito. E hoje, tenho esses momentos como um tempo de celebração desde modo de viver que vai ganhando mais vida e presença no cotidiano.

Escrever não é fácil, não é rápido. Acho lindo quando dizem que escrever é como vomitar. Imagino um jato com inúmeras palavras ditas por segundo e pronto. Acabou. Foi impactante – duro, talvez – mas saiu e acabou. Seu corpo extrai o que ficou dessa força. Escrever, na minha realidade, é uma necessidade porque, como disse antes, é uma ferramenta que se complementa a outra e tem muito valor no sentido de apreender o que é importante pra uma trajetória minha mais autônoma. Eu não escrevo sobre ideias, pensamentos. Não consigo. Minha escrita é um trabalho difícil não por nenhum refinamento, também. Não é um tipo de valorização do que faço, não se trata de erudição. É mais sobre uma dificuldade. Escrever tem sido parte de um trabalho que tenho tentado me dedicar. Escrever depois de se escutar é muito complexo. Ainda não aprendi. E o que escuto não são exatamente palavras. É o desejo que convoca. Mas como? Como diria minha vó: quem souber, morre. Bom, acho que faz muito sentido deslocar esse ditado pra cá. A gente não cansa de desejar, correto? É difícil escrever sobre o que se move em mim, meu olhos não alcançam. É preciso reparar. Aguçar todos os sentidos.

A escrita é como um abrigo que, ao mesmo tempo me isola do resto da dinâmica das coisas em minha volta, me atrela a tudo que é  resultado desse modelo de produção humana. Não me largar e tentar cultivar esses outros tempos têm me feito um bem danado. Tem me estimulado em criatividade. Tem me desalienado e me realinhado quando penso em prática de autoamor. Porque exercita meu corpo, me resguarda. Escrever para mim mesma é como eu não me abandono porque é como eu me respeito. Porque eu respeito o que decido resguardar no não saber dizer ou falar. Nem tudo eu escrevo, nem tudo é destravado pela palavra e eu fico aqui, no agora. Respeitando todas as restrições que eu percebo nessa linha – nada alinhada – de consciência que me guia durante esse processo meu. As rasuras mil, o ato de passar dias apenas num esboço, conceder ao desencontro de raciocínios, sustentar a permissão para que eu pense com todo meu corpo são ganhos inesperados desse fazer terapêutico.

Sobretudo, se eu não me abandono, passo a me respeitar. Quando naturalizo o respeito que preciso garantir para mim mesma, eu não abro mão de mim. Essa espécie de práxis muda a chave que, antes, não conseguia abrir nenhum ferrolho, nem o mais insignificante. A dialética se manifesta num ritmo discreto. Passo a me querer bem e por isso, trato de assumir e incorporar, principalmente, que a “palavra” precisa ser dita e reverberada de formas mais transparentes, não para ninguém do meu convívio. É pra mim. Tudo isso porque, na verdade, eu estou começando a assumir o amor como conduta para todo o resto que me define (longe das letras). Não consigo atrelar diretamente essa construção pelo amor às noções de autoestima que estão sedimentadas na minha cabeça e que pesam a dureza de um estigma. Quando ouso dizer que o amor passa a me refazer, não quer dizer que eu amo tudo que eu sou, que amo meu corpo, que me vejo bonita, que eu me satisfaço ou me realizo porque eu me basto. É mais numa intenção de respeito à trajetória que eu abri até aqui, sem me desdenhar. De ousar traçar minha própria cartografia, digamos assim. Uma nova, se possível. Desenho esse mapa através das letras. Mas não para me desvendar. A analogia é no sentido de me aproximar dos espaços vazios, dos secretos, tentando presentificá-los, para dizer sutilmente que posso esperar, muito embora eu seja muitíssimo curiosa. Para conversar com esses silêncios todos que ouço e que me atraíam desde sempre, ainda que me assustassem na mesma intensidade. Eles têm muito dizer.

Enquanto a carne em contato com o alheio do mundo me forçava a aceitar que eu não deveria legitimá-los, exatamente porque aprendemos que a cabeça precisa estar ~ativa~ e consumindo qualquer coisa desenfreadamente. Porque eu não sei qual a velocidade adequada, enquanto o corpo motor segue um fluxo estrangeiro, amortecido pela dinâmica moderna que não nos permite parar e nos reconhecer a si mesmos. Era um abuso consentido. Eu preciso me implicar e entender que minha posição não era tão passiva assim. As violências que vamos aprendendo pela imitação e não dão margem para desvios, para aquelas dúvidas que, hoje, admiro tanto, são reproduzidas e capturadas por partes de mim que dão um sentido violento para os meus modos de agir. Hoje, a escrita me permite estar aberta ao silêncio que brota por dentro e me observo silenciando para fora. Não mais pelo medo, mas pelo amor. Sem um estado de silêncio, eu não observo, não reconheço, não me alio legitimamente. Penso que é dele que brota a voz, a fala, o grito e a escuta. Nessa mesma análise, é como se eu percebesse que o amor passeia entre o cuidado e a liberdade causado pelo silêncio. O amor vai me disciplinando pela escrita. Não leio disciplina como controle, mas como método que vai burilando esse trato com o amor que me cabe. Porque o amor é condução e essa é minha decisão. Escolher o que me guia. É mais ou menos por aí.

No fundo, eu saio do divã e me sento para escrever porque estou começando a aceitar que eu mereço ser amada. Por mim mesma, pelo universo. E isso é uma crença. A partir daí, quando o amor passa a ser “a chave”, é como óleo que faz tudo deslizar por dentro, já usei essa frase em outros títulos e ela se enraíza cada dia mais forte como uma convicção experimental. Fato é que desliza mesmo. As pecinhas pequenas e cheias de detalhes passam a fazer mais sentido, aquelas roídas e outras destruídas pelo excesso de atrito, perdem o sentido de permanecer, porque ganhou caráter de insistência. Daí, perco mais facilmente o apego – depois dessa guinada de perspectiva – e as benditas dúvidas não me devoram mais. Sempre elas. Então, finalmente, passa a ser hora de trocar aquilo que não para de ranger. O barulho inferniza. Mudar. Não necessariamente substituir a peça. Mas experimentar outras saídas, outros modelos. A gente passa a ousar mais e se levar menos a sério. Escrever se trata disso também. A escrita me permite falar o que quero e aquilo que quero eu também não preciso registrar. Se digo isso, não quer dizer que eu seja aquilo. Se brinco com minhas próprias insignificâncias, não quer dizer que eu não remoa um punhado de remorsos e rancores imaturos pra caber tudo junto no meu arquivo morto do word. Mas como eu tô viva e querendo viver à base desse amor nascente, o arquivo, fruto do moído, é reaberto e reescrito. Porque vivas são as memórias, e a verdade mora nessas lembranças, não no passado tão presente. O efeito da lembrança é o que interessa, porque ele é o remendo que a gente vive cutucando independente da força empregada nessa prática. A lacaniana que o (me) diga. Aliás, descubro ali, depois de falar-escutar tanto de tanta dor, o muito amor que eu tenho e ainda quero acumular e aprender a amar esse amor. O que tenho, está represado., exatamente porque precisa de um fluxo pra fora. pros lados. o amor-próprio não é suficiente, ainda que fundamental, fundacional. Porque o caminho é de mão única. É preciso exercitar o amor-comunidade. O amor que circula entre. Que tem direção. e dentro do qual se é sujeito e objeto. Impossível não escrever nessas condições.

Nem todo ter é consumo, vai. Ser o que se é, é difícil. A gente tem muito de muitas ordens que estão guardadas e que são zeladas por nós. O Ter pode ser ressignificado momentaneamente. E a noção de poder é igualmente alterada. Pelo fato de o poder ser – nessa leitura menos mercantil – uma autoridade sobre si, sobre termos a nós mesmos no nosso horizonte para reconhecermos a imensidão que é ser uma existência absolutamente única na natureza. Esse poder, não é aquele que promove ódio e dominação diante de uma relação estabelecida. Nesse caso, uma nova base de relacionamento consigo mesmo e, portanto, com o mundo produz esse noção de que podemos ser sujeitos poderosos. Empoderados de si (dialogando com a gramática contemporânea, apesar das divergências). Ele tem o caráter de resgate daquilo que nos constitui. (Ter:) Nosso corpo inteiro, nossa política nas nossas mãos, nossa soberania, nossa saúde, nossos afetos, nossos desejos, nossas decisões. Ter enquanto apropriação legítima dos elementos conscientes que nos constituem. Ter o que é nosso, meu, seu é um direito legal, mas é, sobretudo, um poder psíquico humano. Dessa forma, nos acontece numa apreensão mítica na medida em que equilibramos nossa posição entre tantas sociabilidades e imposições/manipulações capitalistas e compreendemos nossa autenticidade. Que sustenta nossa integridade humana, resguarda nossa dignidade e subjetividade a partir da manutenção tanto das relações impostas, quanto das que nós nos colocamos em conduta atuante. Esse é um poder que conquistamos mas não é nossa propriedade, nunca. Porque o que se adquire no ter é tanto troca quanto movimento. Não é uma substância humana em si inalterável ou inabalável. É elaboração, parte do que im-pulsiona nossa potência de vida inteira. Esse poder é movente e conseguimos fazê-lo circular entre os nossos garantindo que o nosso eu esteja dentro do jogo ativamente. É disso que se trata o poder aqui. Uma ação de pertencimento. Em síntese: eu tenho a escrita e me pertenço nela.

Começo a rir pensando na Anitta e me vem a vontade de querer parafraseá-la. Queria agradecer primeiramente a mim, por me autorizar a essa minha escritura buliçosa. Decidir gestar um filho foi o marco para muita coisa. Não foi o início, foi o marco para essa autorização. Muita coisa que passou a me deixar mais cara a cara com aquela coragem toda contorcida que eu rejeitava fortemente. Diria que a minha pinça está trabalhando bastante. E essa nova manifestação de trabalho é boa.

Uma dessas “muitas coisas” foi resgatar – salvar mesmo – textos bem antigos. Registros acabados e abertos. Depois de salvos e de salva, e sentindo a gestação como um bom momento para pensar que estava, finalmente, germinando em mim a vontade declarada de amar meu ser e de estar em contato com o amor, retomei a prática da escrita.

Isso de elaborar materialmente algo de significado fora do mercado me retirou de um estado meio desencarnado de fé no destino das sociedades. Penso agora se não seria essa uma boa explicação para a cura de mim. Depois de parir e de me autorizar a outra infinidade de loucuras, a escrita tornou-se um pouso. Lembrando-me de que, enquanto amo, posso me amar fazendo, desse instante, um outro reflexo codificado de mim mesma. É como consigo definir esse gesto de amor ao perceber que, escrevendo, sou uma mulher que não se abandona(rá) mais.

.

*tudo isso, conversa para outro texto, quem sabe. Esse novelo de agora, é só um relato-agradecimento. Sem a mínima vontade de ser um relato de incentivo, como foi, meu relato de parto, por exemplo. Falar sobre psicanálise, sobre a minha análise pessoal é tema desafiador de um jeito que só mesmo outros tantos textos engavetados para começar a dar conta.

23 e 27 de julho. 11 de agosto. Entre Icaraí-Messejana.

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