Sempre tem um mas.

O maior amor do mundo pesa. Tá pesando seus 14 quilos. E corre e chora e fala mil histórias num idioma desafiador. Tudo na mesma hora. Fala muito, até dormindo. E brinca. Brinca muito, até quando come. O amor precisa ser hidratado constantemente e isso é algo muito sério. É preciso alimentá-lo. Oferecer boas comidas, insistir pacientemente para não cair no empobrecimento das restrições. Restringir é empobrecer. Não é interessante estimular a seletividade nutricional ou de sabores e texturas. Ou de lugares, sensações.

Todo dia tem alguma grande surpresa ou falha na rotina quando se tem um amor assim. O amor dá trabalho e cansa. Não é modo de dizer. É um trabalho, lá desde o trabalho de parto, desde o processo de adoção, como quer que ele apareça: é trabalho. Vou acrescentar. Garantir um amor saudável e feliz – quando nem ele mesmo sabe o que é a felicidade naquele instante – dá muito trabalho. Não há nome mais apropriado. Mas é bom. Mas cansa. Mas é incrível.

O mundo precisa de cuidar mais do amor. Ainda que seja um amor seguro de si, o amor é vulnerável ao novo e às presepadas que ele mesmo inventa. Tem muito amor espalhado e tá sempre chegando mais. Você mesmo nem precisa gerar outro amor se não quiser. O amor é menos sobre quem reproduziu e mais sobre quem cuida. É uma política a prática do cuidado. E amor, é mais que sentimento puro, é um desencadeamento de práticas como nova ética de vida.

Sem amor, pouca coisa faz sentido. E não é que perde a graça pra mim. Eu não planejava nada disso até ele aparecer miudinho, sem grama nenhum pra pesar em mim. O quase nada faz sentido que eu falo é do e para o nosso coletivo maior e da nossa passagem em larga escala pelo mundo. Não coloco evolução no meio disso aqui. Me refiro a um comichão que dá por me atentar ao grandioso que se faz inexplicável diante da vida e dos meus olhos. Essa passagem que se desdobra em desenho abstrato é uma espécie de explicação muito verdadeira de que o sentido maior é saber que o amor é a própria natureza. É como se eu soubesse meu lugar no mundo e o de todo mundo que ama, porque não não existe começo nem fim pra essa história. A gente vai só entrando, se permitindo participar, saindo. É só amor. O amor, quando se é amado, é a única coisa que faz transcender. E pronto. Estou convencida disso há quase 20 meses.

“Não precisa morrer pra ver deus” e é verdade. O seu deus mais precioso tá diante de você quando um amor dessa magnitude e pureza se apresenta e vai se desenvolvendo cercado de afeto, respeito e autonomia. O desdobramento de um convívio assim, que estimula a segurança em si e no próximo é retornar para a natureza gestos afetuosos, respeitosos e livres para compartilhar a vida boa (bela e justa). Essa sabedoria é divina porque é a pura simplicidade da natureza e o puro mistério, também, saber como fazer pra que aconteça todo dia. A gente teme a deus e tem raiva dele também. Ou é só comigo? Quando eu vejo deus, eu tenho a certeza da força que pode ser encontrada na ancestralidade como conexão de todos nós a uma mesma História de vida humana. Como potência do futuro para o impossível, porque o amor, ele é imenso e transborda beleza no seu enredo imprevisível. Arranca nossa presença das tristezas e culpas cotidianas e faz nos conduzir para caminhos de amor e compreensão. Amor hoje, amor como relação em aberto. O amor não é determinista. Nem é algo externo a nós. Ele é no que existe e resiste naquilo que tenta se preservar para seguir adiante. O novo não cresce descartando tudo que é dito velho. ~Resistir como quem deseja~, como quem ama é a condução que me anima.

Esse amor me faz sentir que cada sujeito é um sujeito único para o mundo. Essa dignidade, a da alteridade, não pode ser perdida tão facilmente assim, como uns e outros abutres têm tentado. Viver sem amor dá nisso. Espaço para a mesmice, para o ódio como habitação.

Cuidemos e amemos os amores que tão perto da gente. Nem sempre da maneira que a gente sabe, porque, às vezes, o que a gente sabe é cruel demais e não vale a pena ser retransmitido. Cuidemos e amemos nem sempre sabendo. Mas pelo sentimento que convoca a amar de volta. E sem saber de mais nada, ama sempre beirando o limite que a gente pode garantir em aprimoramento. É um pedido. Digo isso com a certeza de que todo dia é um limite novo e isso tanto energiza a entrega e a troca, quanto alivia as pressões. Afinal, quando se trata de amor-gente, não de objeto precificado, a gente não dá o que a gente tem. A gente dá o que a gente quer dar. Pergunte-se mais sobre o que se quer quando se trata de amor. Espero sinceramente que você não tenha pensado em romance romântico-normativo. Mas se quiser, pode. É que eu estava falando de criança. Do amor sublime que existe na primeira infância, mas aos poucos, vai sendo lapidado. Quantas lascas vão se perdendo nessa história, quantas partes se tornam inúteis por um outro alguém para que a obra seja, finalmente, admirada por esse alguém… esse alguém que nunca será quem foi talhado. Estou falando de todos nós. Todos nós também somos “esse alguém” para um outro.

Olha, sempre tem um amor pequenino por aí, é só querer observar e contribuir de algum jeito. Se não quiser se empenhar nessa entrega tão dedicada, não atrapalhar já é sensacional. Sério mesmo.

O amor só quer amor pra crescer bem. Crescer forte. É amor demais. O amor é terreno fértil diante do trabalho que é cuidar e amar todos os dias. Ou quase todos os dias. Porque, como disse: dá trabalho. E cansa.

Mas me diz, como não amar?

………

03 de agosto de 2022. Bairro de Fátima.

Martín completa seus 19 meses de vida.

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