E o pescoço? ou Enfim, a hipocrisia.

no quintal de uma casinha linda. interior de são paulo. marília. julho/2022.

o que não gera engajamento, mas produz beleza de fora pra dentro. uma forma de desacelerar o ritmo do que nos faz contar o tempo para a chegada do descanso regulamentado. férias da gente mesmo também, vai. esse é o x da questão: nos distanciamos não exatamente do tempo impiedoso, da rotina maçante. mas de nós mesmas nessa condição de controle de tudo. chega bate uma tristeza perceber o quanto fazemos parte dessa engrenagem maior na qual também somos atores ativos e encarnamos, tão friamente, essa sanha pela posse, pela detenção do poder. ao mesmo tempo que vem um sopro de alívio por sabermos que ainda nos resta essa autorização de pausa. o descanso que nos chega como premiação, não como necessidade fisiológica. nossa formação é de dar dó.

há centenas de quilômetros de distância da casa que me abriga, olho pro céu e volto a me espantar. pintura da natureza de todo dia, de todo céu, que é diferente em todo lugar e essa é a norma mais natural porque muda sempre. a gente que fica querendo o filtro, a comparação, o padrão, tudo dentro dum formato exato. a gente desaprendeu a pensar fora do formato do excesso e do ordenamento, de tal forma, que já virou reprodução automática. tá impregnada na cultura essa tentativa de forçar a barra para garantir que seguiremos adequados à ordem, aos outros, ao inanimado. nem combina uma coisa com a outra, mas, cá estamos nós, esgarçando uma relação que, antes de começar, já parece injusta.

tiro por mim. toda desajustada, assumindo que uns reparos são necessários em algum momento da vida. mas, quais seriam os ajustes, fico aqui matutando. me perguntando se é o dito caminho pelo qual as pessoas têm costumado chamar de jornada de cura e suas variações. já ouvi falar em excesso de cura e não me cheira bem. aliás, lembrando do que dizia Nise, muita cura é chato demais. toda cautela é pouca. o marketing em cima dessa possibilidade de nos tornarmos seres curados de tudo e da gente mesmo tá pipocando cada vez mais em todo lugar. o refúgio é curar-se de si como quem se transforma em outro alguém que se dissipa em e de tudo. não sei se tem funcionado, mas me parece que a resposta não convence, pois esse lucro eu entendo como fuga. e fugir para renovar tudo me preocupa. mas é porque sou ignorante. daí, me agarro ao horror da minha ignorância, aos meus demônios assombrados e capetas enfurecidos, caio nos meus buracos infinitos e invento um jeito de correr nessa tralha toda que também sou eu. busco abrigo bem longe dessa limpeza existencial que apela grosseiramente para uma outra combinação duvidosa, uns budismos ocidentalizados-distorcidos por algum arroba que defende, virtualmente, uma vida sem faltas, sem desejo. pois esse suposto desejo que se torna coletivo – para o qual todos se sentem levados a afirmar que desejam – tem a mesma cara e “espírito”. cuja bandeira de vida simples é defendida como quem vende um estilo (ou filosofia!) minimalista pra um morador algumacoisaville cujo último presente foi um carro retirado da conta bancária dos pais.

é tanto falatório. é tanto excesso meu, dos meus, do mundo que aquela história de natureza, de demorar-se, de criar intervalos para a procrastinação, etc., se esvai num piscar de olhos. diria que escorregar nossas reflexões para esse chão miserável que pisamos é para além de chato. já deu. mas não digo mais isso. é que é inevitável. é insuportável na mesma medida. quando sufoca – e sufoca muitas vezes – busco olhar pra cima de novo, rir de amenidades, lamentar minhas repetições, lembrar daquilo que me deixa confortável sem um pra quê imediato. pensar em muitas inutilidades e instantes prestes a escapar da memória. me agarro então, também, a essa desimportância que produz tanta leveza, mas é pouco produtiva praquela rotina que me enrijece. admirar o alheio ao meu corpo. recuperar o entendimento de que força é também dedicar-se a cultivar um corpo atento e ocupá-lo, exige concentração.

pulo de um pensamento para outro. o imaginário me confunde e, aquela resposta que eu espero desde a vigésima linha de pensamento, se perde. fico desfiando as perguntas antes de querer achar uma certeza daquelas bem poéticas que parecem cartilhas que qualquer cidadã/o místico classe média consegue seguir (eles também têm direito ao esoterismo, hein. não se trata disso, por favor). há um quê de inconformismo quando percebo nossa diluição subjetiva. nossos laços sociais cada vez mais frouxos, perdidos e a aceitação dessa fragmentação de arrasar tudo me comove demais.

contemplar o céu não merecia mais que nosso olhar transparente destinado ao seu estado bruto de existência (a contemplação não merece nenhum retoque, requinte de nada). bruto enquanto natureza é isso mesmo, é violento. o céu e toda sua obviedade bruta, intocável, ali, escancarada todo santo dia. é de uma força violenta essa beleza genuína pela simplicidade (simples tanto quanto é uma respiração profunda dos seres vivos). é movente, cíclica na sua rotina. a arte da contemplação é uma ação lenta.

respeitar essa postura atenta diante do céu remexeu com muita coisa. sobre como usar melhor o pescoço, por exemplo. no sentido de alongar sua intenção de sustentação para o alto. como quem busca elevar a intenção de si para o mundo. para a infinitude da natureza. como usar melhor os movimentos que eu disponibilizo e, na prática mesmo, perceber a função do meu pescoço. é como se a consciência ganhasse consistência. numa condução da consciência de tal modo que ela se materializa. e as escolhas passam a ser uma decisão segura. uma decisão como condução para a liberdade cujo significado é só seu, e eu tenho o meu. já o pescoço para o alto significa, nem que seja por um segundo, rejeitar a agonia da observação das telas azuis (e seus múltiplos sinônimos) que envergam os sentidos, curvam nossas potências mais íntimas e comprimem nossa percepção. ao contrário, as partes do corpo – como o pescoço – ganham raízes e importância imediata numa integralidade do saber sobre si. nada se sobressai nem desaparece, os laços aproximam tudo que faz parte dele para o corpo se expandir em curiosidade e transmissão.

a ilusão do suposto desejo descoberto, da suposta consciência adquirida, sai do sobe-desce do indicador das mãos e se converte em experimentação tranquila do que circunda o corpo. essa rota alternativa à compressão e à aceleração do que nos modela dia a dia é, também, subversiva porque nos “desindividualiza”. contribui para elaborar uma formação menos superficial, eticamente falando, e nos forjar melhor enquanto sujeito. portanto, sem uma finalidade única e indissolúvel, sem projetos que nos definem (nos solidificam) e se transmutam em placas de identificação pétreas. de modo que essa necessidade de definição de si não precisa ser absoluta e imutável. podemos ser menos indivíduos e mais sujeitos. não precisamos eleger novos influenciadores a partir de relatos de experiências que não são nossas e não podem ser nossa métrica pessoal de caminhar nossa vida. podemos perceber o movimento dos nossos próprios contornos, formas menos massificadas sem os pixels luminosos atingindo nosso rosto de baixo pra cima incontáveis vezes ao dia. o movimento repetitivo entranha na nossa vida sem nos darmos conta de que, na medida em que essa automatização se reproduz, vamos nos distanciando de nossas dimensões outras que precisam de espaço, ou se um silêncio que essas ferramentas móveis não conseguem oferecer.

não, não somos todos um. esse “argumento” para agir diante do mundo (dos outros) é uma das piores artimanhas cristãs, uma vez que evoca uma empatia que toma como centralidade a exaltação de sua própria trajetória de remissão de pecados e de superação espiritual irretocável. ao passo que dissolve gestos discretos de altruísmo e de solidariedade. além de rejeitar a humildade de assumir que esse um não existe por causa de você (autorizando essa suposta unidade), como se apenas por isso (por você) esse coletivo (Uno) se torna um fenômeno sublimemente valoroso. me parece que não é exatamente essa prática que crenças orientais sobre o divino sugerem, mas é assim que se revestem esses discursos – do mestre, do capitalista*. evocar de forma descuidada esses saberes, ao contrário, inflam o individualismo soft. o problema é ainda mais largo e nocivo em tempos de sociabilidades mediadas pelos algoritmos.

a contemplação silenciosa não produz admiração de ninguém sobre sua própria bondade ou caráter. exercitar essa ideia é possível e merece nossa energia. seria como investir numa produção de tranquilidade rejeitada pelos holofotes. quando isso acontece é porque, provavelmente, tentamos conduzir nossa consciência de tal modo que nos colocamos em condição de não sermos exemplares. é quando rejeitamos a posição autorreferente para o desenvolvimento do outro. ou quando entendemos que não é possível exigirmos ser prioridade isolada diante de absolutamente nada. de nada que pressuponha uma relação horizontal* e que evite posições entre dominador e dominado. porque nos permitimos ao desafio de viver tudo que somos (entre realidade e abstração, desejo e decisões) e todas as relações sem hierarquia, ao mesmo tempo. relações e posições sociais que irão mexer com antigas formas e condutas, até. que bom e que forte. que difícil. o fracasso, pelo menos, me acompanha nessa série de tentativas e erros-acertados.

imaginar essa descrição sendo tateada por cada um de nós é vislumbrar uma decisão de humildade e de abertura para o mundo que me comove fundo. o exercício de humildade tem me pegado de jeito nos últimos tempos. definitivamente, não demonstra ser, nesse mundo, uma prática ~simples~ para a humanidade, a humildade. ser humano não é exatamente ser simples. contudo, preciso acreditar que essa disposição é possível nessa camada do im-possível, porque nos mobilizamos paradoxalmente àquilo que escapa das medidas e pensamentos conscientes, racionais, já tão consolidados entre nós. o que não é consciente tem até estrutura de linguagem, e essa compreensão pode ser mais um exemplo de ideia cuja aparência também é ~simples~ mas é de um saber que só se vive não sabendo, para além do dito e das certezas. apenas porque não se sabe do não-Todo de tudo. a natureza humana é necessariamente abrigo e produção de um não-saber que torna a vida um tanto mais misteriosa – e aflitiva, é verdade – e pulsional apesar dos nossos marcos civilizatórios, ou justamente por causa deles também. a verdade que se elabora nessa estrutura, sempre pronta para sustentar sua inacessibilidade, não produz uma verdade inteiramente revelada. isso que nos escapa dentro da própria filosofia que somos capazes de elaborar, criada pela nossa própria intelectualidade inconformada. é o que nos dilata ao Todo (aquele todo) de instantes memoriais e de prazer efêmero. esse mistério movimenta muita terra. nos eleva e nos aterra. esse movimento incontornável que nos presentifica no mundo, torna esse conceito de ser humano menos romântico/humanista no campo das ideias e da realidade viva. é mais provocativo, relacional. mais seres errantes.

navegar em observação despretensiosa nesse labirinto físico do universo entre areia que se espalha e vento que não se captura é motivo que pode nos levar a mais uma pausa para a bendita contemplação. contemplar costuma abrir espaço dentro da gente e ser prática que estimula um certo tipo de quietude nos incontáveis pensamentos inflamados de pressão e trabalho mental (não pago). a exaustão passa a não fazer mais sentido e a tentativa de rejeitá-la em qualquer ambiente da vida significa não se permitir sucumbir a mais um romance que tentamos fazer dar certo, o romance capital que ora nos entrega doses cavalares de conformismo, ora nos convida a conhecer histórias heroicas daquelas de superação (de si mesmo – ?). nunca, nunca admite sua gênese abusiva.

essa conversa toda também não ganha engajamento, nem entendimento. era pra eu estar repousando o corpo que tá embaixo do pescoço e suspender as caraminholas de ideias que voam acima dele. fica fácil a gente usar o pescoço pra dividir duas partes muito utilitárias do nosso “todo”. o pescoço, coitado. não faz parte de nenhuma banda. fica entre os dois ritmos frenéticos pedindo uma chance de ser cuidado e de poder, quem sabe, conduzir a gente de forma a nos fazer parar para colocar óleo nas suas extremidades e fazer a coisa caminhar junto. parar e contemplar. parar para pensar o que a gente sente e sentir em cada poro nosso a brutalidade de vida que nos circunda e que nós manuseamos dentro desse caminho interno sem bússola ou google maps.

por isso que é uma conversa sem destinatário fora de mim. eu tô tentando é me traduzir pra ver se eu consigo garantir a próxima pausa sem precisar de uma data no calendário do meu chefe. eu não quero estar preparada para descansar de novo, porque isso quer dizer que eu precisarei me desarranjar inteira antes. eu só quero aprender a viver e a contemplar como se essas palavras fossem sinônimas e como se as duas coisas não existissem para ensinar algo. esse sentido utilitário precisa ser abolido. mas entre um suspiro e a realidade batendo na porta, queria só respeitar um pouco mais meu pescoço, sabe. talvez, assim, ele doesse menos. talvez eu o machucasse menos, para ser mais verdadeira. se eu soubesse como conduzir melhor o que tem debaixo dele e o que fica acima dele. acho que seria mais tranquilo o percurso aqui por dentro. mas sabe como é, né. se eu não incorporo essa bendita vida simples do influencer de ontem, melhor nem tentar. tem uma carta na manga de quem quiser tentar, eu tô sempre testando: escolhe uma foto artística de natureza morta com legenda florida comentando sobre a conquista de uma vida transcendental e cósmica que você não sabe nem o que significa. fecha a conta e passa a régua e agora é só esperar. a hipocrisia tem seu valor, ainda bem. quero dizer, não bastasse toda a labuta que assola todos nós, trabalhadores, atrelado ao desafio de tentar se preservar e se perceber diante desse mar de iguais que tentam desenhar, preciso estar atenta para mostrar ao mundo como eu consigo evoluir diante da lama! preciso expor que me priorizo acima de todas as coisas, que eu cuido dos meus chackras, que a humanidade é divina, que tenho que ser forte sem esconder minhas fragilidades, que buscar a cura televisionada é a melhor resposta para os nossos sofrimentos. mas do pescoço, ninguém fala, só observo.

pelo visto, preciso de mais dias, de muitos mais nadas para fazer. para entender mais um punhado de coisas apequenadas que preciso superar e mais outro bocado de tardes livres para me afogar justamente nesse vendaval de questões e inconformismos que prefiro não deixar passar batido. quem sabe mais uns minutos mirando as novas nuvens que chegaram, as rosas em suas cores vibrantes.

se tem muito a ser dito e muita coisa transmitindo algum outro saber é sinal de que eu preciso insistir na escuta. todo dia. e simplesmente tentar ser o que eu sou sem saber disso na hora que tô tentando ser, apenas. é preciso escutar o que já existe diante de mim. talvez, pelo fato de que o céu de todo dia e a humanidade – em toda sua feiúra e boniteza ambígua, radicalmente contraditória – não precisem de grandes esforços para serem quem são. se não precisássemos desse descanso de nós mesmos para sentirmos a vida como ela é, seria melhor ainda. sentir o céu como ele é, o natural, o que se renova sem qualquer força externa desproporcional. digo desproporcional porque estamos – sempre – envolvidos com forças externas. apesar de não sermos todos um – nunca, estamos enlaçados uns aos outros e isso é de uma força excepcional. esses enlaçamentos, essa força nos diz muito, todo tempo. o que posso fazer com isso, eu ainda não sei.

cansei de pensar. essa conexão de palavras é endereçada aos meus ouvidos mesmo. aos dedos ainda viciados e aos meus silêncios assustados. ah! e ao pescoço em formação, evidentemente. vida longa aos descansos de quem somos para sermos um pouco mais do que pensamos ser numa realidade ~e se~. essa realidade é, no mínimo, cruel. pessoalmente, tenho pavor desse desvio de interesse para uma vida dentro de um “e se?”. nesse lugar perfeccionista, a contemplação também não tem vez na fila dos quereres mais autênticos porque o perfeccionismo é sempre uma romantização, portanto, um sofrimento. e esse estado contemplativo-romantizado é desvirtuado também. passa a ter uma função outra que não a de pouso sem si mesmo diante do belo e apenas ser o que se sente sem pensar no que te tocou, ver o que se enxerga sem pensar no que foi visto. apenas ser o que se sente.  joguemos fora esse recurso enganoso de nos ludibriarmos pelo medo das nossas prováveis limitações.

enquanto ainda temos direito a ele, vida longa ao descanso. além de lei, é necessidade da natureza. da minha, da sua. de toda pessoa que vive a partir de intervenções sobre tudo. em qualquer tempo-território. vida muito longa aos descansos desengajados, que não viram modo de inspiração a quem chamamos de seguidores. nem mercadoria no menu da nossa barra de rolagem virtual, que não deixa de ser real, muito real, inclusive.

vida longa aos descansos meus e de mim.

  • iniciado dia 7 de julho. no bloco de notas do celular.
    final de dia bonito, pensante e contemplativo de férias e (*)leitura cortante de um texto proposto em Cartel.

<[…]era mais fácil ser santo que uma pessoa> conto ~Amor~. em Laços de família, 20ª edição.

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