Um amor azul

“Antigamente”, Martín chamava  o céu de mar. E eu achava a coisa mais linda. No começo, eu o corrigia. Mas achava um desperdício. Quero dizer, não é que ele pronunciasse a palavra “mar” errado. É importante no processo do falar, que haja conduções quanto à pronúncia, coisa de ortodoxia social e estímulos direcionados à norma culta das línguas. Como se houvesse alguma parte – sabemos bem qual – inculta de um idioma. Nesse caso, não era nada disso. Era apenas como, naquela cabeça de encantamentos inéditos, ele sentia essa grande capa azul com tufinhos de branco espalhados nela presa lá no alto do mundo. Parei de corrigi-lo e quando ele falava de novo eu repetia: o maaaar, filho, que lindo! Tem o mar que nos cobre e o mar que nos rodeia. Todo mundo veio de algum mar, aliás. Água salgada é protetora, fertiliza a vida humana. Acho que Martín ama o mar.

Eu sentia uma felicidade muito maternal ao expressar orgulho do meu filho falando e fazendo esse tipo de associação. É como eu materializo as crianças que leio em Manoel de Barros. Era aquilo sendo transmitido pelo meu filho em fragmentos de cotidianidade.

Hoje, depois de mais de 16 meses de vida, Martín olhou pro desenho de um dos seus livros favoritos da semana(!) e saiu um CÉU. E não foi pra um céu qualquer, o céu estava alaranjado, avermelhado e as nuvens, azuis. Ele insistiu no céu. Os meus olhos se arregalaram e um outro orgulho veio em gargalhadas e repetições: isso, céu, céu! Olhei para o Rodrigo, que narrava a historinha, e reconhecemos o grande feito do dia em meio a corizas e conjuntivite. Ele sabe o que é o céu!

Essa cena, aparentemente banal, me deixou melancólica porque eu tenho (quase) certeza de que minha cria não vai mais “errar”. Agora, o céu é céu e o mar é mar. Pensando assim, como uma adulta muito bem adestrada, fica até meio triste a coisa toda. Eu queria pensar como criança. Ter a espontaneidade de criança. Mas logo eu entendo porque que criança é criança e adulto é adulto. Eu não me conformo com essa via de mão única soberana. Acho que mais que isso, eu não me acostumo, nem acredito nisso. Talvez, por isso, eu esteja tentando deixar minha criança mais solta – e falante.

Junto com a nova palavra aprendida, constatei que esse foi um dos primeiros momentos que “a última vez” aconteceu e eu me dei conta no mesmo instante. Quero guardar esse nunca mais. Um nunca mais bonito, que invade de satisfação porque pede, necessariamente, que eu me lembre de outros momentos triviais.

Martín é o meu mar. Ele me inunda. Arrebata violentamente tantas e tantas vezes. Martín me cerca sem nunca ser cercamento. Quem me em enclausura sou eu mesma e o mundo todo com suas normas e excessos. Martín me banha e me renova, é maré cheia e maré baixa, é piscininha na beira da areia quando ele quer expressar sua manhosidade. Conviver com Martín é pensar na herança pública deixada por Paulo Freire no que eu chamo carinhosamente de pedagogia da paciência e de estímulo à aprendizagem horizontal. Risos nervosos.

Ele é protagonista da caminhada dele e parece que, aos poucos, eu vou aprendendo a encontrar meu lugar entre minhas expectativas dolorosas, práticas inseguras e privilégios. Vou tomando em minhas mãos meu pedaço de céu nessa profundidade tão densa e cheia de inesperados que é a minha relação com meu filho.

Eu não consigo parar de pensar em todas as ramificações de ideias viajantes que esse dia me trouxe. Talvez, seja pertinente terminar com um desejo-prece que chega em mim quase todo dia de azul empoeirado. Eu torço, todos os dias, para que todas as mulheres desse mundo só recebam mais essa função, nessa vida, quando ou se estiverem intimamente decididas a passar por todas as trocas possíveis-misteriosas que há nesse novo jeito de reconhecer o mundo. Novas confusões e sinestesias indescritíveis e sim, algumas irremediavelmente dolorosas. Quando isso acontecer, mesmo nesse mundo caduco, eu tenho (quase) certeza de que todas nós teremos um azul-qualquer da natureza pra chamar de nosso, fruto de relações genuinamente nossas.

Ao falar sobre toda essa potência não quero dizer que  eu acredito que a maternar bebês, crianças e adolescentes seja prática fácil ou simples. Mas também não quero insinuar que lidar com crianças, ainda mais sendo mãe, pai ou cuidador de bebês e crianças seja tarefa simples e cheia de graça em sistemas de mundo pós capitalistas*. Não consigo ler essa máxima como uma bonita ilusão. Ou é isso, ou é idealização da maternidade em si.

Penso que ser mãe continuará sendo missão, sim. Não uma missão de milhões porque o valor do dinheiro ganhará outra significação. Afeto e contato não serão monetizados. Será uma missão de vida. Da – sua – vida integralmente respeitada e amparada pela sua comunidade junto com todos os desdobramentos desse novo estado de coisas. Junto com novos traumas. Os traumas seguirão seus fluxos e permanecerão invadindo nosso caminhar, porque somos nós quem moldaremos esse barro. A costela é a nossa própria. O que esperamos é que sejam, do ponto de vista social, pelo menos, concretadas em outras estruturas diferentes das atuais e históricas que abominamos. Os traumas e o desenrolar de todos eles que poderão até nos afastar de todos os mares quentinhos e conseguirão esconder, em alguma medida, o céu que habita em todos os poemas bonitos sobre o imenso infinito.  A gente continuará vivendo e isso já basta para saber que cada um moldará sua missão com mais autenticidade para decidir sobre seus novos dilemas e tensões e, belezas, e choros… A vida humana é traumática.

A maternidade seguirá como missão, quem sabe, de uma vida em tons de azul. Porque o direito ao azul será inalienável em qualquer chão. Um azul alaranjado, avermelhado, lilás. Vai ter fartura de azul. Um azul que transmite temperatura, que tem sabor, que se movimenta no espaço e conversa até com a lua. A gente pode decidir escolher pelo nosso azul, que mora lá no fundo da gente e isso bastará pra muitas pessoas. Exatamente porque a gente pode decidir no nosso tempo. No tempo do tocar, do contemplar, do sentir, do decidir. Teremos mais liberdade para viver o Ser com mais espontaneidade. Tão livre que poderemos voltar a nomear as coisas pelo tanto que elas importam pra gente, sem correções ou ajustes abruptos. Antes de aprendermos o certo e o errado dessas coisas de sempre, aprenderemos a experimentar sem vergonha ou medo do que fatalmente permanecerá desajustado mesmo após sequências de reparos. Tal hora, a adequação foi feita e não é porque houve intervenção alheia, é só porque a gente vai entender que alguns entendimentos são o que são e precisam ser assim assimilados, tal como o mar é o mar e o céu é o céu. O que a gente não precisa, nunca, é achar que precisa de pressa pra aprender o que esperam de todo mundo. A experiência do inesperado no viver precisa de tempo e de espontaneidade. Ela acontece quando eu me permito aprender com o Martín a viver um outro tempo, um outro valor, uma outra relação. É como uma chama de motivação, de fé no que virá, acontecendo na minha frente, todo dia de hoje. Uma fé azul que brilha.

Valeu por esse dia, Martín. Fez o meu abatimento físico ficar pequeninho por algumas boas horas.

O amor é mesmo azulzinho.

Domingo  19 de junho. Na salinha.

*Eu queria ser alguém que se permite escrever “simplesmente”! Só escrever sobre a beleza de um dia bonito ou ridículo sem demarcar explicitamente parte das marcas que orientam minhas formas de ler um dia vivido, de sentir uma história, de refletir sobre amenidades. É como se eu precisasse demarcar o contexto social, as disparidades políticas para que as amenidades sejam, então, amenas “de verdade”. O sofrimento, algo sofrido mesmo; a felicidade, uma fugacidade justa. Eu admiro profundamente quem consegue essa proeza, de só escrever. Admiro de verdade. Nesse parágrafo marcado, a cabeça descambou para questões já delineadas por lá mesmo e meu azul foi ficando longe. Então, decidi extrair toda a parte desenvolvida sobre essa ideia de que “ser mãe é bom, ruim é todo o resto” e coloquei numa “parte 2” desse mesmo texto. Uma espécie de “um amor azul, porém…”.

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