pa-la-vra

Quando eu era mais nova, costumava brincar com meu irmão de “falar palavras gostosas de serem pronunciadas”. Que, pela pronúncia, nos dava vontade de provar a coisa, como se fosse comida. Ge la dei ra, ja bu ti, cho ca lho, short, ja ne la,  s o m, es tei o, jo ga ti na, ca ne la e por aí vai. Era uma graça. Sem muitas explicações, esse joguinho me impactou. Marca ainda hoje quando penso que palavra pode ter gosto, pode ter cheiro. Palavra consegue ganhar contornos de objeto, de pensamento profundo, de arrepio, de incômodo. Mais que polifônica, é polissensorial, por assim dizer.

conjunto de esteios moldados feitos de madeira de eucalipto tratado.
Esteios moldados de madeira tratada.

Sempre  gostei da sonoridade da geladeira e do esteio, por exemplo. Repetia várias vezes seguidas. Achava particularmente muito engraçado querer provar o “esteio” que enchia a boca, rapidamente, como água. Na minha cabeça, vinha menos a ideia de um objeto rudimentar que fixa, prende alguma coisa num lugar e mais o seu caráter figurativo, que ouvia desde a adolescência. O de tornar um ser humano o sustentáculo emocional que “protege” alguém, que passa a ter essa identificação para o outro. É incrível pensar que uma pessoa pode oferecer tamanha capacidade de abrigo a uma outra. Na minha elaboração sobre a relação que possibilita essa construção afetiva, reflito sobre o amor que nela reside, mas, sobretudo, sobre dependência, sobre confiança incondicional e, portanto, sobre entrega plena da estabilidade do seu constructo psicológico, do seu equilíbrio emocional e cotidiano a um outro sujeito.

Não quero sugerir que as pessoas não devam confiar em seus familiares, amigos e companheiros sexuais. Pelo contrário, deve ser pressuposto. É o que defendo e é como vivo. Uso o termo incondicional porque parto do entendimento de que confiar em outra pessoa exige acordos preestabelecidos uma vez que são sujeitos diferentes, que pensam diferente, que têm formações morais distintas ali se relacionando e precisam atualizar em alguma medidas as diretrizes do laço. Diante dessa estranheza inerente ao convívio  entre pessoas humanas e, como boa pessimista que sou, admito a tendência a acreditar que, em geral, não podemos ser esteio de ninguém. Não só isso. Não deveríamos (tentar) ser. É incompatível com a dimensão própria e existencial de cada um.  Não é prudente, até. Menos ainda, pedagógico (ainda que essa seja a menor das preocupações, sei bem). Mas sabemos que existem espécimes que são, que podem sê-lo para alguém, ué. E se assim gostam, não é da minha conta nenhuma forma de julgamento e preconceito. Não cabe a mim, achar que devo colocar os olhos sobre causos que nem me interessam e nem dizem respeito a nada sobre mim. Mas tem cabimento eu abstrair sobre o assunto, sobre o efeito desse esteio-humano mais que sobre os objetos específicos em cada contexto de cada um.

Refletir também é palavra saborosa no meu pensamento que não descansa. Nessa toada, tem cabimento falar minha opinião – sobre aquilo que eu nem acredito – porque, pra variar, é possível me colocar na cena em questão e ir reparando nas minhas próprias debilidades e intenções. Pois bem. Acredito que são poucas as pessoas que conseguem desenvolver essa habilidade e refiná-la sem se perder de si em camadas importantes da sua intimidade. Eu chamaria esse feito da frase anterior de exceção, exatamente porque a regra, a norma é outra. Essas pessoas existem, que bom. Mas, em todos os cenários mais objetivos, no sentido de exercitar os contextos possíveis à minha realidade, para representar essa ideia de ser esteio para, esse Ser não se desenvolve saudavelmente, menos ainda quem atribui esse dito esteio a alguém. Pior que nem falo a partir de um trauma ou algo do tipo. É mais uma preocupação aleatória sobre o quanto podemos distorcer e idealizar trocas afetivas, amorosas. Idealizando e distorcendo as próprias pessoas e o “papel” de cada uma em nossas vidas. Papel esse que nós atribuímos a cada uma delas, já que a história é sempre nossa, de quem vê, sente e se relaciona. Cada um com sua história.

Sei que existem nuances e que cada relação tem suas particularidades, mas é que nunca quis (ou consegui) enquadrar, nas minhas relações amorosas, esse atributo. Penso como eu receberia uma afirmação como essa: que sou o esteio de algum amor meu e aqui, nem de longe eu faço referência apenas aos amores eróticos e sexuais. Independente do personagem, não encaro como elogio, mas como uma imensa e dura responsabilidade. Dura mesmo, pouco flexível, pouco ajustada aos sem número de fluxos que chegam e escoam na vida. Ser esteio me faz achar que meu amores ou eu me torno um algo imóvel. Um papel de imobilidade na história de outro para seja lá qual propósito do interessado. Prefiro outras declarações, por favor. Independente do laço, encaro como uma afirmação ingrata em via de mão dupla, ainda que absolutamente compreensível se levantarmos os olhos para a realidade maior que nos abarca e condiciona o modus operandi dos nos desejos, que reorganiza nosso imaginário, enfim. É muito confortável despejar essa condição sobre alguém que não sobre mim mesma, meu próprio passo e percurso. A quem eu iria culpar e responsabilizar?

O espaço para autocrítica é limitado e disputado com outras elaborações mais interessantes pros egos tanto liberais como românticos, ideologicamente falando. Numa cartinha escrita à mão ou num depoimento de orkut e afins, facilmente a palavra ganha contornos de um puta elogio. Mas, aqui dentro nessa minha inquietude tantas vezes insuportável, saber que sou e que fui esteio de alguém me assusta e já me paralisou. Hoje, eu a rejeito em qualquer perspectiva, pelo menos qualquer uma para a qual já fui apresentada. Pode ser que existam outras compreensões e espero que sim. Como diria a senhora minha mãe, “cada cabeça, uma sentença”. Cada cabeça tem seu próprio guia de condução sobre as coisas e as nomeiam da forma que lhe seja mais adequada e conveniente. Deve ter esteio de tudo que é tipo. Em algum lugar, pode ser coisa muito boa e libertadora e eu que desconheço. Boto fé nisso.

Fato é que, se eu esticar a (minha) corda, aproximo essa condição justamente à minha mãe. Seus conselhos, seu estado de alerta perene, sua entrega altruísta, seu acolhimento incessantemente firme e lúcido me faz pensar que a minha mãe encarna, como disse, mais essa responsabilidade. E não consigo deixar de associar esse estado dela em relação a mim como uma postura muito cansativa, para dizer o mínimo. Ela, mesmo eu não querendo, mesmo ela não buscando esse status, é meu esteio. E eu não acho justo. Porque é desigual. O nascedouro desse esteio como um “afeto” torna alguém, na melhor das hipóteses, mais passivo da sua própria vida e quereres e escolhas que deveria. Tem sempre um beneficiado privilegiado no endereçamento dessa postura nitidamente desproporcional. Na outra ponta do fio, evidentemente, há um abnegado, rígido demais – como sugere o dicionário – para garantir “com sucesso” que seu próprio corpo siga sustentando um outro corpo (mental e suas demandas).

Esteio é palavra linda – acalentadora no imaginário, afaga a sensação de importância que a gente vive querendo que o outro superestime sobre a gente. Mas, pra mim, é pesada demais se encarnada assim, como característica que referencia alguém. Quando parecer que o chão despencou – e sei que essa queda acontecerá novamente, – ou quando eu estiver flutuando “demais”, como das outras tantas vezes, quero ser esteio de mim mesma. Arrimo do meu corpo quando este insistir em andar desembestado. Quero estar aterrada em mim o suficiente para não deslizar apenas por impulsos desajustados, nem sair de órbita a ponto de correr o risco de não mais retornar. Quero ser esteio de mim, sob penalidade de frustrar apenas a mim mesma e as expectativas que ainda ouso alimentar para a minha própria caminhada. Que eu não seja esteio para ninguém porque eu sei que vou frustrar, porque não lido bem com expectativas amorosas que endurecem a todos sob o manto desses condicionamentos rigorosos. Que ninguém deposite em mim essa função-expectativa. Que eu não faça essa escolha tão espontaneamente para satisfazer medos e projeções alheias. Não mereço essa demanda. Você também não. Não se esqueça disso, porque eu não me esqueço. E não quero criar listas de cobrança ou textos apaixonados com esse tipo de de-cla-ra-ção. Não funcionará. Declaro para ninguém que todos estão desobrigados de me sustentar assim, como um decreto-lei de ser esteio. Não é elogio. Pressão e cobrança afetiva combinam mais para explicar essa designação cuja aparência ganha um verniz até poético quando a gente ama. Nas minhas experiências, de dentro pra fora, lembra mais um movimento de carência que advém do derretimento das autoestimas e do autoamor, que de trocas de cuidado e de contato afetuoso.

Fato é que tudo é possível quando os interesses são mútuos, sim. E eu estou aqui, lembrando de uma brincadeira infantil no intuito de arrumar uma forma mais objetiva para refletir que eu devo estar preocupada só com a possível parte que me cabe, expondo – sempre que necessário – os acordos pré-relação que ganham importância e pedem gestos mais abertos e honestos de minha parte. Portanto, partir minhas próprias imposições sobre o outro também.

Advinda de inúmeras explicações sociais e históricas e verificada em diversas relações, essa “questão” – cuja fonte é devaneio da minha própria cabeça mesmo – ganha contornos mil. Mas, ao mesmo tempo, está aí para quem quiser constatar, em mil e uma narrativas individuais. Individualizadas porque o final das histórias tratam da ruptura, da decepção de terem tido um esteio eliminado de suas vidas, seja qual for o motivo. Tem coisa que existe. Mas não deveria. Naturalizar essa assimetria afetiva não me parece fazer bem para nenhum lado. Nesse caso, não escolha um lado. Ser seu próprio lugar já basta e ele não precisa de outro paradeiro que não seu próprio corpo e consciência e todo um apanhado de palavras que nos aproximam de nós mesmas, de uma noção de autorresponsabilização.

Até aqui, tudo certo. Mas, se eu rejeito a premissa de relações cujo esteio seja parte de uma caracterização positiva, o que se oferta para o outro? Não há resposta da minha parte. tenho tateado pelas bordas e o que sinto e sintetizo, em palavras, para tentar traduzir as dúvidas que buscam respostas, chega aos dedos e atravessa a boca falando de Presença. Cheia e furada e múltipla. Ser presença verdadeira para si é a melhor oferta que podemos exigir dentro de uma relação que se pretenda camarada, solidária e contranormativa. Essa presença que busca estar consistente o suficiente para ser lida e acolhida em todas as suas dimensões. Ser presente à distância ou nos intensos contatos pele com pele. Ser presença ativa com todos os órgãos do sentir e do sentido que estejam à disposição nos momentos de troca e de aproximação. Parece uma boa alternativa. Simples e larga. Absolutamente rica de possibilidades, de ações práticas.

Taí outra palavra gostosa. Pre-sen-ça.

Texto de Maio/2012. Retirado dos rascunhos de um antigo endereço de conta hotmail. rs. Devidamente atualizado pós-pandemia. Junho/2022

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