A ilusão da exatidão

La Vie, Fortaleza. Maio, 2022

A busca pela exatidão já não ganha mais volume no pensamento porque eu mesma já tento me despir paulatinamente desse desespero mental. Abandono, não inteiramente, mais uma ilusão. A de que avanço no autoconhecimento e, com isso, sou a minha melhor versão. Uma busca que mais entrega os frutos das minhas carências que qualquer outra coisa, provavelmente. Uma busca iludida.

É preciso dizer que não é tarefa tranquila assumir esse percurso, mas tem sido uma decisão cotidiana. O rompimento de perseguir essa busca ocorre, especialmente, diante da percepção de que o único elemento que ganha a possibilidade de uma mísera segunda chance, ou muitas novas oportunidades, é o erro. É dele ou, por causa dele, que posso melhorar. Ser melhor não porque venci, mas porque testei rotas, porque me desgastei, porque recuei, também, e soube pausar. Porque escolhi desistir. Porque pude experimentar o caminho do ato de levantar do desprezível. É um ato de humildade para todos que se permitem tentar esse movimento, aliás. Buscar essa prática é dureza, porque a gente precisa reconhecer que não somos assim tão importantes pra todo mundo, que convivemos com mesquinharias produzidas por desvios nossos. Esse estado de humildade é uma persistência lenta em mim. Contudo, chegar mais perto desse entendimento aliviou muita coisa por aqui. É como se tivesse forrando com uma colcha de carinho a esteira sobre a qual eu mesma desfiava antes de dormir e sobre ela, eu só autorizava o desconforto e a inadequação.

A falha se torna uma chance porque, a partir de algum amadurecimento moral e ético do sujeito, não há mais motivo convincente para dissipá-la, expurgá-la. Porque ela é imanente do que se construiu enquanto humano. Seria como um cristão fugindo do pecado. Ou seja, uma intenção impossível em si. Assumir essa verdade é que são elas. E digo mais, ao contrário do ditado popular, falar não é fácil. Talvez porque, para assumir essa condição, a maturidade se faça protagonista em algum grau, imperativa em algum instante para mais essa aceitação de si. O problema é que a maturidade não chega com a idade. Ela não é um evento marcado na agenda ou um rito que demarque a passagem de uma fase para outra da vida.  O negócio não é cronológico, nem cumulativo assim. Pelo menos, não nessas paragens.

Acredito que não acolher essa orientação seria como tornar-se inimiga de si porque ela, a falha, não arrega. Ao contrário, é inventiva, alerta. A gente aprende a conviver com “sua” capacidade criativa e vai tentando não repetir os mesmos caminhos vergonhosos já conhecidos e refletidos, hoje. É uma performance preventiva de cuidado, de prudência com o Outro e de respeito com o mundo, por assim dizer. Vamos mediando. Sendo
mediadores de nós mesmos com a realidade genérica. É uma decisão fazer as pazes com essa certeza, presente nos nossos passos como nódoa seca. Não larga. É que ela não precisa acontecer para existir, é como eu poderia explicar. A chance de errar não se esvazia, justamente por ser uma chance sempre à disposição – disposta a acontecer, um efeito. Não é um deslize, não deveríamos subestimá-la assim.

Ah, isso irrita tanto. Pelo menos a mim. Ela assombra antes e depois do ato em si. Irrita assumir que a a falha, para a própria falha, é um acerto. Para nós então. E o ato falho, tão acertado? O esforço de compreender essa engrenagem da condição humana mexe em lugares nossos muito difíceis de assumir. Mas, insisto, a tendência é de que o processo seja profundamente libertador (de algo). É, por assim dizer, uma rota alternativa ao que já está dado como destino-expectativa social a cada um de nós.

Ao fim e ao cabo, essa história é sobre um tipo de trabalho que produz uma possibilidade de potência pelo relaxamento. Assim, em modos indefinidos. Aquilo
que depois de “pensado” e reafirmado em ação libera um alívio, como se eu pudesse ouvir um suspiro de algum lugar do cérebro, outro dos ombros, outro da coluna. Um trabalho cujo produto é fazer nosso corpo relaxar diante de uma pressão que nos ensinaram e nós alimentamos. É como se a vida estivesse se preparando para realocar um sintoma, talvez diluí-lo um pouco a partir desse novo modo de tentar viver. E é no campo da possibilidade porque nos despimos de uma camada muitíssimo artificial, ainda que feita sob medida para cada um de nós, me parece. De tão colada à nossa pele, acredito que foi a primeira vestimenta que nossos pais nos puseram. Ainda assim, não é nossa pele. Elaboro essa analogia para conseguir jogá-la fora. Abrir mão dessa obrigação pela exatidão. Não precisamos de mais esse véu, essa roupagem. Esse saco que nos amarra, nos enrijece.

A argamassa – ou a roupa da moda – da exatidão poderia ser a perseverança e a determinação se estivéssemos num mundo saudável, numa galáxia ainda não encontrada. Como o mundo é esse, o elemento fundamental que dialoga tão bem
conosco ganha um contorno (que precisa ser) descartado por todos nós. Ele pode ser amplamente nomeado a depender de quem o sente. O meu elemento tem um nome.
Ele é fruto do medo e da relativização do autocuidado. De um profundo constrangimento, desses que vão espremendo o corpo, enquadrando-o.

A partir dessa possível nova leitura de mundo, que nos estimula a experiências mais tranquilas de como atingir um objetivo, perseguir um desejo, realizar um projeto, e assim por diante, podemos pressentir quão mais tranquilo pode ser o viver. A tranquilidade de quem sabe que pode conversar mais com o tempo, ao mesmo tempo em que ganha mais um pesinho na mochila. Uma vez que estaremos dentro de uma conduta que pesa mais pela força e pela dureza de sua verdade. Tudo tem um peso, né. Estamos diante de mais uma ambivalência humana. Dessa soma, a priori, contraditória, a vida passa a ser encarada de forma um tanto quanto mais simples. É no que acredito verdadeiramente. Mas não uma simplicidade romantizada, ajeitadinha, polida, florida, ensolarada todos os dias. Refiro-me à simplicidade de assumir ser o que se é. Porque não somos grandes coisas. Ser sem a cilada do engodo, sem os remendos que nada consertam, sem a enrolação dos arrodeios covardes.

Encarar o simples é, de alguma forma, assumir o que e quem si é, todos os seus lados. Assumir que o simples é de uma complexidade, uma instabilidade sempre preparada para se revelar a partir de um ângulo preciso. Encarar tudo isso para, finalmente, sentir a vida sem pressa e sem fantasia da vergonha. Reivindicar um novo uso do tempo, desacelerar em absolutamente tudo. Esse modo lento de fazer-se e de estar no mundo costuma ser muito simples. Parte de uma mudança radical de relacionamento com o tempo, com o seu tempo diante do tempo da economia das relações estruturais. Acho que essa é a primeira desconstrução, enquanto ação, revolucionária: assumir-se numa apropriação com o tempo que é absolutamente sua. Não (apenas) do mercado, não (tão) impositiva na medida das possibilidades objetivas da vida de cada um.

E, então, assumir e olhar para si para quem tem esse tempo-privilégio. Para quem comporta e abarca esse si. Você e sua coisa, seu isso, seu neutro, seu incolor, seja o qual for o nome que preferir. Sustentar o horror de ser inexata. Falo de você porque também é sobre mim. É quando me expando em mim mesma e não preciso mais antever-me no reflexo de ninguém. Esse encarar-se que não está na conta de uma racionalização disciplinar sugere fazer-brotar uma magia, que é a de conseguir absorver essa mesma perspectiva de uma simplicidade no viver também, na troca, no trato com as coisas, com os sujeitos.

O simples passa a ser um fluxo depois que a gente se assume para fora do armário. É simplificar as relações e não lidar com a reatividade de modo exaltado sempre.  A cabeça não suporta e o corpo emite sinais do desajuste mental. Porque a premissa é transcender exatamente nesse o que se é. Transcender nesse mesmo viver com sua força sem direcionamento, sem um alvo. No presente, nessa matéria. Ser o que se faz dos tropeços e das quedas homéricas. O como. Como se escolhe atravessar. O modo da travessia, não o destino, não a fuga para um lugar (que se torna) sublime só porque você chegou nesse fim que é estar longe de você e de todas as riquezas que as falhas podem revelar e ensinar durante uma vida inteira, no seu miolo.

Exercitar ser o que se é me aproxima do mundo porque eu aceito que não há certo, nem perfeito, nem um fim. E as expectativas vão se desmanchando, ficando engraçadas porque elas não fazem mais qualquer sentido fora imaginário. Contudo, não avanço esse entendimento aqui poque o (meu) <muro da linguagem> é imenso. O que suponho saber é que a partir daí, algumas coisas vão ficando mais localizáveis, outras tantas mais tangíveis, outras ao sabor do acaso e do que pode ou não deve ser revelado. A partir dessa nitidez, ou dessa lucidez, a simplicidade vai ganhando materialidade, estrutura, firmeza e serenidade ao constatar o tamanho e quão mais leve pode ser nossa pequenez no mundo. É de um alívio existencial. Ser presença atuante com tudo o que se tem direito. É um direito, a queda.

É ser como são todos os seres que amo ou admiro. De imperfeição estruturante. Não existe qualquer noção de ser gente sem nossa intervenção mais primitiva de insistirmos na vida. Renova nossa pulsão de vida e de morte nos reconhecermos, primeira e finalmente, enquanto aprendizes de vivências, simplesmente. Descobridores de desejos sob efeito do ato de desejar. De alguma vida a partir da qual escolhemos para abrir estradas ao passo que, reconhecemos, um tanto aliviados que, é o que fazemos de nós após nossas quedas – sobre nossas próprias falhas, que nos qualifica. Se mais esse movimento vertical – de reerguer-se apesar do estrago da queda – aconteceu, é porque é do erro esparramado no chão que podemos nos reerguer e, principalmente, seguir
dignamente. Provavelmente, é esse movimento a mais justa régua que mede a todos
nós e nos arranca dos nossos apegos e carências apequenadas advindos daquele semblante de gestos e falas e posturas precisas. Porque todos esses movimentos pensados e repassados na cabeça para satisfazer aquela busca pela exatidão já não fazem mais nenhum sentido. É simples mesmo.

Reorganizar-se em si mesmo depois de despencar quebra o desenho da vergonha e dos orgulhos todos que vamos criando durante uma vida. Depois de saber que estamos de pé – já que a outra opção seria chafurdar na lama – sabemos que é desse lugar comum cheio de nossas ruínas que nos refazemos e levamos conosco algum rastro da nossa história. As marcas são fraturas expostas, ruídos, ecos. É o tempo. É a memória involuntária e é o que decanta silenciosamente. Tem de tudo.

O que quero dizer (ou traduzir) para mim mesma – depois de tanto tempo ruminando um pouco sobre esse tipo de desprendimento (e o peso dessa intenção) que tem se aproximado do meu percurso – é que não é o que ficou pra trás que revela alguma coisa sobre alguém e sobre a coisa que se tornou fato passado. Isso não existe nas minhas abstrações. Nada fica pra trás. É (n)o nosso corpo lógico de todo dia a via de transmissão, a fonte mais vestigial e a testemunha Real da nossa própria história.

Nosso todo corpóreo sustenta tudo, sempre não-todo porque aquela parte inapreensível é também parte do prisma que nos constitui. E é essa compreensão que nos move. É o que, nos transforma e nos faz sujeitos capazes de, em algum momento da vida, viver com mais integridade tudo o que pode ser e acontecer no entre e não nos aparentes grandes acontecimentos. Aqueles fatos que conseguem espalhar restos por todo lugar que marcam mais quem prefere decorar seus pensamentos com a sujeira do chão, que a acompanhar a caminhada de quem deseja seguir desejando… e seguir caminhando. Seguindo em frente e de pé.

Talvez, tudo se resuma aos pés. Minha caminhada mecânica é tão imprecisa, inconstante. Me pergunto agora porque tirei a ideia de que preciso respeitar mais a estranheza das pressões alheias se tenho meus próprios pés, se é através deles que caminho melhor, que penso com mais franqueza em todos os terrenos existentes. Que denunciam imediatamente as minhas fraquezas, que tateiam as fronteiras, que sustentam tudo quando me ergo. Porque, simplesmente, sou eu, apenas eu que piso no meu Real.

 

[esse texto não vem apenas de mim, mas das muitas referências literárias, teóricas e que minha própria vida mesmo tem bebido nos últimos anos. talvez, esse texto tenha sido uma tentativa de agradecer pelo caminho (meu) que tenho confrontado (quase)sempre que a porta do 606 se fecha, às quintas-feiras. Não saber tem sido avassalador.]

 

 

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