Criança não sabe de nada, mas pode ensinar muito a quem acha que já conhece tudo.

“São as crianças, que sem falar, nos ensinam as razões para viver. Elas não têm saberes a transmitir. No entanto, eles sabem o essencial da vida.” Rubem Alves.

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Rubem Alves, como em tudo que li até hoje dele, fez poesia com a precisão de quem não tem muito tempo a perder e precisa ser objetivo no recado. Ele fala sobre culinária e sobre deus. Sobre amor na filosofia e pedagogia na infância. Ele, por exemplo, não fica às voltas para tentar garantir algum olhar piedoso sobre a criança, ou sobre a ideia que se criou e se naturalizou sobre a vida na infância. Ele parece que nos fala o que um dia já foi óbvio e nos faz enxergar nossa pequenez e genialidade ao mesmo tempo. Sua escrita nos expõe à limitação do adulto e de uma vida adultizada, profundamente castrada de espontaneidade, ao mesmo tempo que invasiva em presunção e arrogância. Não concordo com tudo. Mas ele me faz pensar de forma muito atraente e isso é lindo.

Quanto ao trecho que me chamou atenção, é o exemplo do que penso sobre ele e sua sabedoria. Existem razões para viver e é na infância que a razão se torna um sentido, uma abertura de caminhos diante dos desconhecidos. É pela infância onde vamos sendo reorientados por supostos parâmetros disciplinares e pedagógicos que nos civilizam. Ou seja, que nos controlam e normalizam radicalmente. É na infância onde nossos primeiros cuidadores nos cobrem de marcos de humanização, de civilidade e passamos do estatuto de mamífero que está tentando sobreviver (que come, dorme, chora, caga) para um humano, dotado de características humanas. Esse trabalho é pesado.

Bom, percebo dessa forma porque penso que a infância parte de uma premissa que é a da ação genuína, portanto, curiosa. O estímulo à curiosidade é o lugar onde vemos o encontro da partida biológica com o ser social. A medida de cada um é diferente de realidade em realidade específica. Fato é que somos curiosos quando somos (ou estamos) crianças. É onde se estabelece o “primeiro” tudo. A infância precisa ser rica de experiência e integralmente bem vivida para que o “primeiro tudo” aconteça livremente sem reorientações e crenças que mais tolhem percepções de mundo que nos qualificam positivamente em nossa caminhada. As fronteiras precisam ser repensadas para seguirmos vivendo de forma mais autêntica.

Há muitas razões poderosas para nos querermos vivos.

Penso que se há uma razão, seria a de viver pelo e para o amor. Amar. Como um movimento. Para essa prática, não se exige grandes bagagens de nenhuma ordem. O histórico não é determinante para o modo como as pessoas se abrem ao encontro, ao amor. Disponibilidade e presença e cada vai forjando possibilidades. O que é espantoso para a cabeça de quem, todo dia, tem uma meta a cumprir para satisfazer sua posição no capital. Até as horas livres são agendadas e o que se fará de útil nesse tempo precisa ser programado. Experimentar amar é o caminho e só as crianças têm a espontaneidade de desbravar genuinamente essa rota. No mundo adulto, a gente troca o modo do caminhar e chama de coragem mesmo. Talvez, por isso, a gente sempre queira voltar a essa infância e, ao mesmo tempo, sempre tente amofinar um pouco dessa fatia de vida que nós fomos um dia. Ela é reveladora. As crianças que nos cercam despertam essa potência afetiva inexplicável. Elas não nos orientam formalmente. Apenas amam. Sem qualquer método científico e, se tiver algum, não me fale.

Saber amar passa longe da racionalidade bancária e se aproxima mais de uma inteligência das sensibilidades. Isso é demais pra nossa cabeça. A gente só quer usar a cabeça. Não vejo cabimento em querer controlar uma criança. Há explicações para educá-la, isso eu sei. Criar e cuidar que é bom, é exagero. Garantir colo, uma postura de <escutatória> e compaixão. Ainda existe quem ousa tentar, ainda bem. Inclusive, novos paradigmas educacionais perpassam necessariamente esse entendimento.

O exercício da autonomia pelo amor é perigoso para a manutenção do estado das coisas como são há séculos. Parece que desaprendemos os efeitos desse sentimento. Acolhimento tem sido interpretado como patologia. A defesa de uma construção humana segura, afetiva e que se paute pela sua emancipação sócio-histórica é problemática, dizem. É política, ideológica, progressista demais. Dizem. Pelo risco de reconhecerem nisso um “movimento antissistêmico”, tratam como “trabalho invisível” essa responsabilidade que é social. A gente passa a tratar esse trabalho como mais um apagamento pessoal, uma clausura mental no que é nomeado lar. Dessa constatação, o resto do enredo pode ser imaginado facilmente porque é a realidade estatística. Não precisa se esforçar muito.

Eu não acredito na ideia de essência humana. Acredito que a gente carrega nosso eu criança dentro da gente. E se é por esse sentido que o verbo nos comunica, quase como abrigar um fardo, muita coisa se explica na cabeça de um adulto adultizado. Criança não merece ser sinônimo de objeto, de carga pesada só porque não produz e ainda não foi devidamente domesticada. Criança está longe de ser um miniadulto, mas a gente insiste em tomar como referência para analisar um universo tão potente, como é o da infância, as amarras e condicionamentos doentios que nos definem como esse ser um sujeito maduro. Se bem que, talvez exatamente por essa percepção, não possamos esperar muito de uma sociedade que trata o saber como mercadoria e manifestação amorosa como piada. Então, façamos o que nos foi disciplinado fazer: sejamos mais tolerantes… com os adultos.

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