um enquadramento amoroso. ou, a simplicidade do amor não é tão fácil assim.

[Fortaleza, janeiro de 2021, atualizado em algum dia de julho do mesmo ano.]

Respirei eu fundo, foi-se tudo pra escanteio.

[tudo. tudo.]

Verso representativo do “textão” que começou a ser escrito dias atrás e merece ser aprofundado depois (quando sobrar tempo, algum dia, quem sabe). Por ora, acho que só quero exibir e compartilhar todo meu amor assim, capturado pela simplicidade do espontâneo. Porque é simples o viver quando não se tem que provar nada a ninguém, quando se quer e se tem que existir, simplesmente. Enquanto vigio seu sono, meu filho, vou me felicitando por ter permitido te trazer pra junto de mim e dos meus. Enquanto vigio teu sono assim, sem nada de-mais. Assim, do jeitinho que a vida boa se apresenta pra gente no cotidiano. São minutinhos bobos, pequenas alegrias espalhadas ao longo de um dia comum, e de uma noite difícil. Em fatias de horas nada românticas que parecem dar sentido a tudo (que ficou e que virá), e dão. É nesse tempo-lugar onde mora muito do que importa, de verdade, aqui. Ou melhor, muito do desimportante, das inúmeras miudezas, que eu espero nunca deixar escapar.

Mas aí o tempo passa cumprindo seu próprio destino e a contemplação vai perdendo espaço. O tempo deixa de ser aquele contado pelo relógio e, minuto em minuto, a vida se impõe numa única e complexa dimensão temporal – lógica. Logo aparece uma reflexão, uma problematização. E uma pressa, uma tarefa inacabada. Aparece também um cocô para ser averiguado e celebrado, um choro para ser atendido, um banho, um sono que se mantem exclusivamente no meu colo. É no modo tudo-ao-mesmo-tempo-nos-muitos-agoras. A racionalidade que nos submete a todo tipo de atenção para um mundo que atropela todo descanso, todo suspiro.

Admirar sua longa soneca da tarde não é mais uma possibilidade cotidiana. As sensações são inúmeras, a dor começa a se apresentar como uma realidade imutável, que se cristaliza e se finca ao meu corpo sem pudor. O sono pendente aliado ao cansaço é interpretado pelos meus neurônios como uma tortura em cada músculo e osso. Tudo dói. Pensar dói. As sinapses estão bem lentas, muito lentas. Não é justo, ainda que seja uma escolha. Ainda que a consciência produza algum orgulho por saber da conquista que significa a licença maternidade, a dedicação exclusiva ao cuidado e muitos eteceteras. Só de olhar para você, meu filho, enquanto mama-dorme, dá a impressão de que o “padecer no paraíso” faz todo sentido, pelo menos, por um milésimo de segundo. (E meu lugar de fala é o lugar de uma mãe que se vê confrontada reiteradamente pela realidade social abusiva e pela crença absoluta de que a maternidade não deve/não pode ser encarada como uma opressão em si. Como o fim da mulher. A maternidade não precisa e não pode ser universalizada. Há beleza e há tudo que há de mais humano – portanto, contraditório – na ação que é maternar. )

Dito isso, filho, a maternidade me faz questionar o porquê de a simplicidade não ser vivida facilmente. Existem respostas possíveis, já até óbvias. As resoluções são simples, né? Já me deparei com cartilhas, certificadas e tudo! Mas como tornar fácil? Não é uma pergunta retórica. Em meias palavras, como tornar possível uma vida digna e de abundância de prazer e fruição de afetividades ativas, de partilha, de respeito ao tempo do cuidado ao mesmo tempo que da contemplação quando se é mãe nesse, nesse mundo de merda?

Você se manifesta como meu paraíso na Terra, Martín. E, acredite, essa não é uma linha exagerada. Nem as linhas dos parágrafos anteriores são hipérboles, infelizmente. É a mais fiel descrição de mim enquanto te admiro. O amor já não cabe em nenhuma explicação que um dia ousei elaborar. Paradoxalmente, parece que minha âncora ficou mais pesada, ainda mais submersa nessa tensão extenuante que é lidar com as tarefas cotidianas fundamentais para garantir a organização pessoal e familiar atreladas uma a outra com o máximo de equilíbrio possível. Friso aqui o ‘possível’. Porque, em relação ao ideal de perfeição panfletado pela podosfera materna, não chego nem perto disso. Ouço falar todos os dias, mas nunca vi nem comi. Um dia, poderemos conversar melhor sobre isso. Uma conversa mais franca e longa, talvez. Porque você estará vivendo com mais consciência e consistência a mesma realidade que eu e é justo que assim seja. É justo com seu crescimento que você perceba a verdadeira realidade sem meus filtros que me tornam menos honesta contigo. Você é meu filho, oras. Essa característica as mães não precisam garantir. Precisam? Desculpa, Martín, nossa função é paradoxal em muitos níveis relacionais.

Não sei quando e se dividirei com você esse texto. Tem uma parte do meu mundo – meio denso e aleatório – que não precisa ser divido com você tão cedo. Não vou me valer do argumento de que “tem coisas que você não precisa saber”. É apenas porque eu não sei explicar tudo. Nem as maravilhosidades e belezas que existem ao convivermos um com o outro, tampouco as agruras, os muitos nós na garganta, o aperreio medroso que você presenciou sem nem saber do que se tratava. Mas, se você ler tudo isso, o que será que mais te convidará ao afeto, ao vínculo mais consolidado e leve que eu tanto desejo? São muitos causos, muitas construções imbuídas de um “interesse maior” que é atingir sua formação humana mais íntima enquanto sujeito. São muitas as questões.

É fato também que não sei até quando vou conseguir contar com minha memória mais estruturada. A gente perde essa capacidade, filho. Isso nunca me assustou como agora. Parece desleixo, mas é sobrecarga mental. Não porque eu esteja sobrecarregada (mas estou). Por aqui, tem sido tudo muito bem dialogado e repartido – ainda que essa prática nunca seja suficiente, você vai entender sobre o que estou tratando aqui. É de lascar essa insuficiência. Quando paro para “medir” as sobrecargas, constato que não dá para ser tão mais democrático e equânime, ou dá e eu não vejo, sabe-se lá. O que sinto é que é mais como se eu <precisasse> estar estafada. Preciso cavar esse tipo de experiência para me autoafirmar nessa função. É uma cobrança meio ancestral, meio misógina, fruto de uma educação e de uma cultura inteira e estruturalmente condicionada ao sofrimento compulsório.

Nesse caldo, mesmo me esforçando ao exercício de quebrar correntes históricas que me controlam e guiam pela autoindulgência e para a condescendência sobre qualquer crítica que recaia ao outro no que diz respeito à educação e ao cuidado parental, o medo de esquecer algo relevante sobre sua vida me assusta. Por isso, tento decorar cada segundo, cada sorriso, cada toque no cabelo pretinho e macio, ainda cheio de caspa. Até que mais essa falta chegue, vou tentando catalogar todos esses momentos que estão se avolumando um tanto quanto desorganizadamente em minha volta. São fotos, frases, lembretes no celular, conversas com meu companheiro, textos no computador e no caderno. Minhas antecessoras já me alertaram: passa e você sentirá saudade. Como isso é possível? Que alquimia está por trás disso? A teoria explica com alguma dificuldade o que a prática <transvê> e ganha uma complexidade muito própria da maternagem engajada e diária que universaliza o que é de foro absolutamente íntimo.

Está passando tudo muito rápido-devagar nesse caminho-só que é o maternar no contexto moderno, neoliberal, blá blá blá. Estou sentindo saudade. Muitas saudades. Saudade do que você já foi, do que eu já fui, também. Saudade do amor que eu supunha ser imenso e, hoje, me cobre inteira e me espanta exatamente por isso. Saudade do nosso primeiro encontro e do nosso último dia conectados por uma placenta. Saudade do primeiro assombramento com um engasgo e do encontro com o mistério da vida que foi te ver respirando numa CTI. Do primeiro sorriso, da luta com sua própria inexperiência para sentar e sentooou! Vibrei como quem se alegra com o Ceará ganhando um campeonato de futebol. Saudade do presente que se manifesta num inapreensível caminho-nosso indissolúvel. Às vezes, eu queria que fosse provisório em alguns momentos. Se não entender, te explico depois, tudo bem?

Hoje, depois de boa parte desse incômodo já decantado, olho a terra arrasada sobre os teus ombros enquanto te amamento, Tín, e a minha decisão é de me tornar amiga da saudade. Quero me relacionar bem com esse estado permanente do meu lado mãe, mesmo nos dias em que ela chega metida e sem assunto como é com qualquer amiga daquelas de um top 5 hipotético. Quando ela quer apenas marcar presença. Essa amizade conquistada é processual e, já na vida adulta, tão cheia de vícios, confesso que é uma relação arriscada, ainda que convicta e interessada.

Te amo, meu filho. Amo tanto que nada mais dói tanto quanto a possibilidade de qualquer injustiça desprezível chegando até você, Titinho. Por alguns segundos, ao lembrar desse amor, de todos esses dias que me trouxeram tanto peso, sinto o amor que alegra. Nunca acreditei que felicidade pudesse ser um sentimento tão mutante e com vaga cativa em alguém. Ela está aqui, como uma centelha, uma faísca. Um fogaréu, vez ou outra. Sem forma fixa, sem grandes contornos. Tem trânsito garantido por todo meu corpo. Vagando, apenas brilha a todo instante dentro de mim. Não a vejo sempre. Como disse, tem sito tudo muito atabalhoado, mas há uma certeza de que ela ronda aqui por dentro. Isso é fascinante.

Esse brilho foi a primeira coisa que você me ofertou. Sem pedir nada em troca. Essa chama que, de tão brilhante, tem me cegado, por vezes. Tem me feito desnortear sem prumo mesmo quando o trajeto parece previsível. A luz vem e me confunde. Faz parte. Quem disse que seria perfeito! Nada em mim é. Nem você, filho, perfeito na sua imperfeição. Mas essa obviedade não me interessa, nem me comove. Tampouco me decepciona. Você me trouxe luz. Deu uma segunda vida a alguém que nem sempre sabe iluminar seu percurso como se deve. Daí, você chegou – sem pedir licença, hein. Depois te conto os detalhes, porque essa história é boa – e me presenteou de muitas formas. Não passou por nenhum plano antigo de autorrealização te ter. Mas já em mim, você se tornou uma decisão, um desejo bem cuidado. E você fez seu trabalho-arte-milagre. Você foi o próprio presente nutrido por mim. Uma das formas através da qual você se exibiu num modo inédito, para mim, foi me apresentando, ou melhor, foi (me) escancarando uma dimensão minha que vivia em quase completo apagamento. Você chegou e revolveu tudo. Não ficou pedra sobre pedra (mais um clichê que eu posso chamar de meu) e, com seu jeitinho seguro e curioso, foi redesenhando comigo meu mapa interno para que eu pudesse viajar dentro de mim mesma através de outro prisma. De muitas outras óticas. Você não se importou com o terreno tão pouco cuidado. Ao contrário, apostou nele, em mim. Você, num imenso gesto de generosidade, me permitiu ir ao encontro dessa nascente de luz bem aqui dentro. Dedico a você, Martín, minha mais profunda e fértil expressão de gratidão, afeto caloroso e expansão amorosa de mim.

Você não merece nada menos que meu respeito e amor renovados, sempre. É inegociável. Aceita ou aceita, filhote. Colo, aconchego, acolhimento e algum senso de justiça. Morro de medo e minhas pernas tremem só de pensar que você pode ter em mim um modelo exemplar de ser humano. Acho que falharei nisso também. Ao passo que torço muito – muito! – para que você consiga ser um cara (um alguém) gente boa, que manifesta sua inteligência com sabedoria e humildade. Torço para que seja sempre muito gentil e solidário com as pessoas, Tín. Gentil e generoso. Mas fico cá pensando, eu e minhas alucinações, se essa torcida não pode ser sinônimo de pressão em algum momento. Olha a perna tremendo de novo! Deus me livre. Eu quero conseguir destinar minha torcida exclusivamente para sua felicidade. Para que você consiga viver muitos momentos alegres genuinamente e que, diferente de mim, exercite com mais habilidade a persistência pelo caminho ético e justo. Torço, agora, para que você encontre pessoas do bem e que elas sigam crescendo contigo. Torço para que as rupturas que você venha a experimentar sejam absorvidas pela justa medida do seu crescimento. Nem sofrimento demais, nem pressa demais para que você não se engasgue por bobagem ou se sufoque com o que não deveria ser represado. Quase nada deve ser enclausurado, vai por mim. Que as dores sentidas, possam, um dia, fazer sentido e que você faça bom uso desse entendimento no tempo que for conveniente.

A lista das expectativas é um tanto extensa, percebe! Estou dedicada a ela, mas preciso avisar que sou falha. Que, se eu nem sempre me dedicar todo dia para ser a “melhor mãe do mundo” (esse jargão eu rejeito) é porque eu divido meus cansaços habituais de uma rotina de trabalho atroz com uma dose relevante de preguiça inata diante da postura do ter que ser perfeita, da perfeição compulsória*. Eu realmente não quero ser perfeita nem como mãe. Deve ser muito difícil isso. Eu não sou essa pessoa e espero que você nunca se esforce (leia-se sofra) para alcançar esse patamar de reconhecimento social a partir dos critérios de alguém – já que para nós mesmos, a perfeição é inatingível.  Há outros sofrimentos inevitáveis, acredite, Martín.  Eles serão inescapáveis tanto quanto, provavelmente, serão também, transponíveis. Num tempo que não é bem nosso, em condições, quase sempre adversas. Ai, os traumas. Deixa eu me desapegar dessa máxima… Aceita, Marília. Dizem que dói menos.

Há expectativas minhas sobre tudo isso, mas essa angústia ficará mais iletrada, por enquanto. Seja qual for a conjuntura ou contingência, seguirei ao teu lado. Para amparar, cuidar, empurrar e pausar junto. Ou, simplesmente, observar de longe, mas junto. Sei que algumas distâncias são e serão necessárias na jornada. Os temidos afastamentos. Mas se quiser, se me quiser para partilhar as dores e sorrisos de um dia ordinário e os dramas dos grandes acontecimentos, já estou a postos.

Sou grata por me fazer amar mais e melhor o mundo e a mim mesma. Assumo que, há tempos, por uma série de razões com sentido e sem sentido, sabia que pra mim a grande sacada era construir esse mundo e não apenas passar por ele. Ser agente, ser sujeito de si e para o todo, ser atuante na sociedade, dentro de alguma comunidade, etc. Já existia em mim a consciência dessa postura. Mas é que você turbinou minha fonte de energia vital, animou minha base de sustentação que caminhava tão pessimista e desiludida. Eu estava meio que desaprendendo a fantasiar. Imaginação podada. Poderia até dizer que você é essa minha fonte, mas não quero te sobrecarregar. Fica tranquilo. O que é valioso para mim pode ser um fardo para você e, imperfeita como sou, antecipo logo que os fardos que eu te darei lhe exigirão outros tipos de trabalho. Esse, você não precisa sustentar.

Eu não entendo nada sobre o amor. O amor é abstrato demais. As ditas 500 explicações catalogadas sobre o amor (obrigada, Matilde) nos levam a uma dimensão complexa de afetos. Existe uma que satisfaz cada cidadão que clama por alguma explicação que o acalme. De Lacan à Guimarães Rosa, bell hooks à Hélène Cixous, Luedji Luna à Alcione, Hilda Hilst, à Elza Soares, Maria Marques, Clarice Lispector, Pessoa e Bethânia. Haja opção. Nada disso me abarca por completo, apesar de me sentir próxima desse esforço de nos esclarecer sobre o entendimento amoroso. Agora, se alguém me perguntar sobre amar, eu sei alguma coisa desse verbo e já posso ser a primeira a inaugurar essa nova lista. Posso me aventurar nessa brincadeira porque você existe, Martín. Meu exercício intensivo – e ambíguo, paradoxal (eu insisto nessa palavra) e inconveniente, tantas vezes – de amar nasceu com a pureza da sua vida, como são todas, absolutamente todas as vidas que nascem. Penso em como começar, mas não consigo descrever bem, já antecipo. Se quer saber o primeiro passo, contemplar e acompanhar sua rotina e descobertas já revela o que tento escrever.

Você é potência de vida, Martín. Torço para que consiga movimentar essa energia tão emocionante que emana de você. Conta comigo. Vamos juntos? Há alguns bons meses caminhamos juntos e temos conseguido conquistas brilhantes. Obrigada por essa caminhada que se inicia assim, como o bom da vida se apresenta… despretensiosamente, leve, sem grandes enquadramentos, nem iluminação profissional. Amadoramente, seguiremos juntos.

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*Sempre me assustou profundamente a ideia e estímulo à perfeição porque acredito que ela compõe uma dinâmica de reprodução econômica e ideológica que fortalece um modelo violento de desenvolvimento pessoal. Uma ilusão perigosa nesse movimento dialético entre individuação e implicações sociais. Não queria sentir a necessidade de falar sobre isso numa carta ao meu filho que ainda nem sabe ler. Mas não consigo desviar dessa realidade tão dura exatamente sobre a formação de vida que começou agora. (A sua vida, Martín.) … É como disse, não sou perfeita.

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