Da janelinha lateral, o que se vê.

O chegar desses primatas é elemento vivo de uma rotina difusa que poderia, facilmente, passar despercebido. Me cativa sempre a aproximação deles e de outras famílias esfomeadas que se revezam no contato com os habitantes da casa 380. São muitos os animais que aparecem no quintal. Eles brotam, fazem dali uma parada obrigatória de fugas de suas antigas gaiolas. Brinco muito dizendo pra mim mesma que é um santuário natural de tudo que é animal que foi encarcerado e que, de repente, se viu numa oportunidade de desbravar a vida. De botar para funcionar as asas nunca usadas, o instinto que fora aprisionado. Mas esses mamíferos (vez ou outra, aparece um recém-nascido colado no dorso da mãe, mais lenta) nunca estiveram presos. Vivem por aí, pulando, comendo e se reproduzindo. Nessas horas, eu que me sinto uma invasora.

Meu quintal, em 2017. Parque Santa Maria.

Esses macacos surgem quase que inconformados por não verem as bananas já descascadas no mesmo local de sempre. Quem não gosta de garantir um hábito gostoso e saudável assim?! Desinibidos, pois não precisaram pensar em fazer diferente, arrancam conversas e sorrisos dos moradores todos da casa que espreitam a ocupação do cajueiro pela janelinha de vitral do quarto. Esse movimento diário quer me dizer e me despertar para alguma coisa. Naquele momento, percebi que essa minha percepção poderia ter sido capturada bem antes, se longe dum estado de pressa habitual que me esmaga faz uns anos da minha juventude.

Trato de apurar os ouvidos e refinar o olhar para a simplicidade. Quantas vezes, ao observamos animais afora, tentamos tratá-los como quase humanos. Cravamos neles referências comportamentais nossas e, só a partir desse referencial, a grande empatia floresce. Chega a ser deprimente esse esforço para optar por encontrar alguma comoção apenas porque criamos um espelho diante de nós mesmos que bloqueia a verdade que antecedo ao reflexo: eles não são “quase” a gente. Eles são o que são.  Eles não têm que nada. Eles estão vivendo. Não são ingratos por não responderem carinhosamente pelas frutas deixadas nas árvores. Há beleza neles porque há e isso deveria ser suficiente. Não merecem castigo no outro dia.

Quase que imediatamente me percebo numa certa rigidez física, os pensamentos constrangidos pela sensação de emburrecimento quanto mais insisto em agir como induz o destino administrado pela ordem civilizatória. São muitos os espelhos. Eu só queria contemplar, garantir a parte da leveza do viver, que dizem por aí, por mais tempo. No meu tempo. Mas o corpo está condicionado ao estado de alerta.

Por outro lado, aquece a alma perceber que é possível mudar a chave. E mais que isso, que nos humanizamos, também, distante dos nossos pares, da sociedade normatizada. Mas até decidir pela melhor chave, o processo pode cansar, hein. Afirmo por mim. Isso acontece à medida em que sua base social consciente de vida se torna a desconstrução e o revide a tudo que sustenta o status quo através do qual somos impedidos de parar no nosso ritmo. Não podemos, porque precisamos estar sempre em combate. Parece que a gente se torna um estado de alerta ambulante. Uma auto-observação que pode descambar violentamente para um modo de autofiscalização paranoica. Eu só quero admirá-los! Mas não tem jeito. Não dá para desver ou dessentir.

Às vezes, parece que só o que a gente precisa é desumanizar um pouco mais a construção do (que é) Ser humano. Caminhar direção contrária do dito moderno mesmo bem dentro dele, estruturalmente falando. A rota clandestina existe e nos convida a fugir do óbvio, chegar sem avisar; pedir sem conhecer, ser e cair no ridículo. Experimentar gestos menos roteirizados, sentir novas possibilidades do belo, reivindicar outras estéticas. Sermos mais natureza, regressar à nossa gênese, mais espontânea, pueril. Mais bicho.

Talvez, a questão a ser superada pela minha cabecinha difícil (longe de mim encarar tudo isso como uma questão universal), não seja exatamente nossa incompreensão sobre o que é humanizar-se. Não se trata exatamente disso, é o que penso. Urge o desmoronamento da adultização maquinária dos sapiens sapiens. Não estamos preparados para sermos a espécie – que convencionou a si própria! – que sabe que sabe, francamente. Quanto de fardo e de soberania a nomenclatura da nossa espécie consegue nos transmitir, caros bichanos. Tornar-se adulto, precisa necessariamente passar pelo rito da perda da ingenuidade e abrir mão do olhar hipnotizado pelo simples que nos circunda. É o que dizem os adultos nas entrelinhas do passar dos anos ou em imposições descaradas. Essa renúncia não se explica dentro da minha cabeça. O recurso lógico de desenvolvimento evolutivo pode ser uma importante teoria, mas não me convence.

Reivindico o encantamento pelas coisas e pessoas. Desejo seguir reparando nos detalhes do amanhecer pelas lentes dos hóspedes mais espontâneos do meu refúgio. Interesse bobo e infantil demais esse meu. Foi o sussurro que ouvi. Sorri e fotografei o que me fez abobalhar.

Segui registrando a boniteza toda enquanto pensava sobre a cena que acabara de me acontecer. Mais tranquila, cravo que está tudo bem. Deve ser exatamente esse modo de estar no mundo que me salva, ainda que por poucos segundos, da engenharia societária adoecida – e irreversivelmente adoecedora – sob a qual estamos suportando existir. Quero mesmo é experimentar essas invenções contra-humanas, sem hífen. Aquilo que de tão espontâneas e fora da agenda do trabalho conseguem existir mais livremente, porque é da sua natureza se manifestar, espontaneamente, com a casa aberta para tudo o que vier.

Gosto de cultivar essa postura displicente diante das doutrinas que tratam o comportamento humano como uma expressão unívoca de quem precisa mostrar serviço o tempo todo, sabe. Servidão pelo reconhecimento. Todo mundo quer ser influencer de alguém, de algum nicho. Esse apego abarca tanto tipo de gente. Não tiro o meu da reta. Meu tipinho tá aí e eu até sei, mais ou menos, sua classificação. É que cada um quer mostrar um serviço específico e se envaidecer nesse lugar. Sem julgamentos, eu não falo de uma posição de observação. Pelo contrário. Meu indicador está apontando é para mim mesmo e ainda não consegui relaxar o dedo.

Então, essas linhas todas poderiam até ser interessantes para falar sobre inquietudes e amenidades desavisadas. Mas não é só isso. Lá no fundinho, eu sei. E não recuo. É um modo de respeitar a minha própria estrutura ainda pouco desbravada, mas tão acidentada. Encaro e assumo esses excessos todos. Depois do estalo, abdico mais uma vez desse lugar bem humano já advertida de que sair dele não é possível hoje. Não é uma realidade sair sozinha de canto nenhum. Não é nisso que acredito.

A parte do corpo que raciocina-e-sente precisa parar vez em quando e só admirar. Só respirar. Sem que precise descambar numa meditação pública sempre, sem que o desejo de aproveitar o presente se torne um exercício mindfulness. Inspirar e expirar com a coluna curvadinha mesmo, coitada. Sem tempo para tanta etiqueta classe médiaquemédia. A procrastinação é uma necessidade. Esse texto está descambando para o oposto disso. Pega tudo e joga fora. São muitas as inquietudes. Detesto (mas nem tanto) metatextos breguinhas assim. Eis mais uma das minhas repetições, além dos péssimos sarcasmos cheios de diminutivo. Fica confuso demais. Porque é confuso demais, né!

Tentativa de retomar ao ponto central e ajeitar algum desfecho, logo.

Saindo da ponta dos pés após o último peludo devorar a última fruta, vou me voltando para dentro do quarto. Agora vai.

Enquanto a confusão decanta, encaro os desafios de contrariar a norma e dar vazão ao outro lado desse humano. Ainda que, convenhamos, possa ser chato pra caramba esse movimento disperso e tão desacreditado, é igualmente bom demais. Gostoso demais. Porque me garante uma boa dose de reserva de encantamento e de fé nesse mundo quando ousamos decidir pelo modo como conduziremos nossas tentativas de liberdade e nossa atuação ao lado das nossas e nossos, nessa terra que nos pede firmeza e malemolência. Esse outro lado é a famosa humanização, enquanto potência filosófica e direitos fundamentais respeitados.

Humanizar(-se) como deriva de uma prática afetiva e de solidariedade política a tudo que é achatado pela outra capacidade humana de desfiar ódio e tudo o que advém desse princípio de poder. Pessimismo, celeridade, frieza, obediência e sequidão amorosa nos impedem de olhar pelas frestas das janelas com mais generosidade para as exterioridades da nossa cultura, do mundo do nosso tempo. Essas produções nos repelem uns dos outros. O frame compartilhado pelas bordas da janelinha diz muito sobre muita coisa (em mim).

A pausa merece ganhar mais espaço. Os encontros triviais que arrancam a atenção e mil gargalhadas de qualquer criança continuam existindo bem na nossa cara. Contemplar é uma ação profunda que ocorre com meu espírito e com a criança que habita em mim quando disponibilizo minha presença inteira ao instante agora. Criança que descansa bem ao lado das minhas vaidades, turbulências e prazer de experimentar viver na clandestinidade, (aquela) tão Real. Meu Real.

27 de Setembro de 2017.

*Postei esse texto na rede social concorrente e, desde então, me volto a ele não sei bem o porquê. Bom, eu sei. Mais uma vez, <esse movimento […] quer me dizer e me despertar para alguma coisa. > Um dia eu descubro.

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