Uma mãe não é apenas a mãe de alguém.

Martín, meu firmamento. 2022.

Lembro bem como era a vida antes de me tornar mãe. Tenho saudade dela, às vezes. E sinto um certo ressentimento por saber que essa questão nunca será resolvida inteiramente. É como num luto. Porque é irreversível. A falta é sempre – de algum modo – alimentada por dispositivos mentais e materiais que devastam esse estado de melancolia. Apesar da escolha da comparação, a relação é outra porque a perda definitiva é a falta de si mesma em vida. Então, a coisa fica mais complexa para ser explicada. Essa saudade não paralisa e não me faz querer retornar para nenhum momento anterior. Nem me sinto perseguida por ela, ainda que essa percepção tenha me assustado profundamente durante o puerpério. Racionalmente, eu sei do amor genuíno e da parceria que ganhei ao conviver, cuidar e criar meu filho.

Maternar não diz sobre uma pessoa, mas sobre uma relação e como ela reverbera em outros planos sociais, ao mesmo tempo em que é matizada intimamente através de inúmeros campos sensíveis . A minha maternidade, pessoalmente, tem sido construída de forma arrebatadora e feliz e, mesmo assim, sou afetada diretamente pelas expressões patriarcais de exploração e opressão odiosa sobre as mulheres que encaram o fazer materno. Para fora, a relação mãe-filh@ é disputadíssima, mas, historicamente, quem tem ganhado boa parte das batalhas é o conservadorismo. Um leque de discussão se abre a partir dessas poucas linhas. A condução é delicada. Hoje, o que me ocorre não é sobre a troca amorosa que tem ocorrido com meu filho, Martín. Também não se trata sobre a discussão interminável – e necessária – sobre trabalho não remunerado e afeto.

Não é sobre amor. E não está tudo bem. Não está tudo bem há muito tempo e essa constatação não diz respeito a mim, exclusivamente. Mas, sobretudo, ao cenário praticamente imóvel no que diz respeito à realidade das mulheres mães nos contextos históricos econômicos e sociais no Brasil*. Esse cenário opera de forma incisiva e estrutural nas permanências culturais sobre esses sujeitos. O que modifica ou, o que se moderniza, são as inúmeras roupagens a partir das quais seguem evidenciadas a perpetuação dessas práticas excludentes no dia a dia. E é sobre essa dimensão aparentemente sutil da cultura experienciada no nosso cotidiano que gostaria de escrever rapidamente.

São expectativas sociais, estereótipos cruéis que cumprem o papel de reforçar sobre a maternidade esse lugar de isolamento e domesticação da vida de quem materna: da mulher. Uma boa dose de colonialidade, misoginia, sexismo, racismo e muita, muita ideologia religiosa embutida em condutas sólidas e simbólicas que organizam nossa moralidade.

Hoje (20 de outubro de 2021), iniciei conversas com algumas mulheres-mães e fiquei me sentindo num limbo, enxergando um pouco de cada uma delas perto de mim, mas não tão perto, um distanciamento inconveniente. A realidade não é tão diferente.

Os relatos e angústias compartilhadas me deixaram um tanto perdida entre a História desse modo de exploração-opressão e minha subjetividade. Esse limbo é desenhado como o lugar dA mãe. Aparentemente, esse é o nosso território comum assustador, para além de todas as flores e ares de sacralização sobre nossa função. Tudo isso porque, claro, é a nossa mais pura vocação. É inato. Essa caracterização é manifestada em discurso direto ou sutil. Em conversas triviais, em olhares. Ou em piadas, provocações e posturas que pouco ou nunca nos permitem enveredar por outros assuntos da vida moderna que não seja a maternidade. Os diálogos são monotemáticos e sufocam.

Objetivamente, é como se eu me localizasse num não-lugar onde tudo que eu/nós, mães, somos ou nos tornamos – desde às questões materiais, até nossas potencialidades existenciais, projetos pessoais, cotidiano de trabalho, libido, sexualidade, corpo, etc. – entrasse em suspensão involuntária. Passamos a ser lidas ~apenas~ como mães e, de um modo tanto sagaz quanto sutil, vamos internalizando esse estereótipo e nos comportando nesse modo automático de ser A mãe esperada e articulada pelo mercado. Como um adjetivo limitante e, ao mesmo tempo, universal no sentido de só haver um modelo, uma estética, um desfecho aceitável que precisa ser assimilado passivamente por todas nós. Entendo parcialmente. Naturalizamos em alguma medida que o tema circule em nossa volta permanentemente e cause tanta “curiosidade”, o que não deixa de ser sintomático: as práticas de cuidado e educação não são coletivizadas. Não há comunidade nem Estado atuantes. Como essa figura sobrecarregada que faz tudo por amor consegue segurar todos os pratinhos, não é? Bom, essa pretensa preocupação e expectativa de como A mãe conquistará os próximos objetivos da maternidade pode até parecer uma postura bonita e solidária. Infelizmente, é mais um dispositivo refinado de silenciamento sobre nós. O método é violento e reproduz sociabilidades desconfortáveis. O lugar social para o qual essa mãe é deslocada é árido.

É claro que é impossível negar o quanto essa função é estrutural, daqui pra frente, em cada pedaço de mim. Preciso admitir o quanto todas as minhas iniciativas são e serão atravessadas, inevitavelmente, por esse relacionamento. É uma marca permanente, abrupta e traumática no sentido mais ordinário da vivência de um trauma. São traumas cotidianos que nos impactam paulatinamente e nos remodelam sem muito tempo para reflexão sobre esse novo eu que irrompe a partir do acontecimento que é maternar.

A questão é que, assumir a maternidade não elimina todo o ~resto~ que nos constitui. As demandas geradas a partir dessa função sequer minimizam outras responsabilidades assumidas por todas nós antes ou pós maternidade. Enquanto mulheres, somos muito mais que pedacinhos desprezíveis de um passado considerado juvenil e imaturo só porque agora cumprimos nossa função reprodutiva tão esperada pelas sociedades.

Vamos nos identificando com infinidades de outras categorias e construções que poderiam muito mais explicar nossas maternidades do que diluir nossa atuação parental, como tem ocorrido. Nossas outras tantas dimensões de vida poderiam contribuir para nos reconhecermos melhor no contexto sobre o qual vivenciamos nossa maternidade. Mas entrar em contato com essas outras expressões exige tempo, autonomia e uma saúde mental razoavelmente estável, autocuidado cotidiano, etc. Sofremos um desmonte psicológico, físico e social. Ficamos tão fragmentadas que o olhar impregnado de traves cristãs e binarismos ocidentais nos fazem ser vistas apenas por um lado do prisma: mulher não, mãe; sujeito público não, doméstica. Portanto, “do lar”. Recatadíssimas, sem vida pública, sem projetos profissionais, cuja sexualidade não precisa mais ser vivida. Precisamos desprezar ~tudo~ que parece não combinar com nosso novo posto familiar/social. Nossa presença e atuação na sociedade são abruptamente apagadas. E não causa estranhamento. Afinal, somos mães, ué. Nossos desejos, ambições diante do devir coletivo e íntimo são solapadas radicalmente e vamos murchando, cansando, desistindo de tentar subverter as posições do jogo social. O status quo não sofre risco algum.

Há muito o que ser dito, mas, encurtando a história, se é para politizarmos essa categoria, não é preciso nenhuma lente penosa (como se tivéssemos sido penalizadas), tampouco, uma postura de comiseração que supõe que todo aquele “resto” que nos preenche é secundário para reivindicarmos justas políticas públicas com mais legitimidade (aliás, são extensas e históricas as demandas que precisariam ser garantidas legalmente).

A maternidade não deve ser interpretada como um sofrimento inescapável, quase como uma prática natural de penitência para garantirmos a remissão dos pecados e a salvação divina ainda em vida que só as mães conseguem conquistar – amém. Pelo menos, para mim, agora fica muito nítido o sentido do clichê sádico que fala sobre “padecermos no paraíso”.

Se é para politizarmos nossa trajetória numa perspectiva coletiva, é preciso tirar o véu de qualquer interpretação que aponte a saída do problema (ou a raiz dele) para uma condição essencialista e salvacionista/messiânica da mulher e da figura materna, respectivamente. Optar por esse método de análise sobre nosso lugar social nos afasta de nossas reivindicações políticas e nos distancia uma das outras, sujeitos da pauta. Para tanto, é urgente politizar a comunidade inteira. Todos e todas precisam se responsabilizar pela tarefa do cuidado social para que nossa individualidade e cidadania sejam respeitadas, legitimadas em nossa diversidade e exercidas mais livremente.

Não nos esqueçamos que ser mãe não deve ser uma categoria que reduz quem a reivindica. Essa função não é instintiva ou pressuposto de princípio feminino.

Desejo que ser mãe nos expanda. Que seja condição tão íntima, avassaladora e voluntária que, um dia, possamos ser reconhecidas pela diversidade que essa palavra pode transportar, e não pelo sofrimento compulsório e pela desigualdade social do trabalho. Menos ainda, pela, quase instransponível, invisibilidade institucional, por vezes reproduzida pelos que constroem conosco os afetos mais bonitos e camaradas. Ser mãe pode ser incrível, mas segue sendo uma parte (vasta ou pequena, como cada uma assim a sentir) de quem somos.

Uma resposta para “Uma mãe não é apenas a mãe de alguém.”.

  1. O importante é a sociedade se conscientizar de que as mulheres merecem ser felizes e livres!

    Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: