É tempo de lucidez sobre a mesa

“O que somos é feito do que fomos, de modo que convém aceitar com serenidade o peso negativo das etapas vencidas”. Acredito fortemente nesse dizer. Requer um elevado grau de humildade exercitar o estado de espírito sereno para entender que cada etapa pede para ser vivida integral e inteiramente antes de exigi-la um desfecho positivo. Seria simples demais defender uma pureza humana que rejeita sua estrutura inacabada, cindida. Não seria a vida. Pelo menos, não a que me foi apresentada.

Retomo João Cândido anualmente para lembrar que o caminho que nos traz até onde estamos nem sempre é bonito. Mas é, de todo modo, fascinante. Um fascínio pelo real do – meu – mundo que advém apenas da vida mais crua e ordinária a qual me submeto e encaro diariamente. Nós não somos essa idealização social ao pisar na estrada que se constrói diante do nosso corpo. Somos pulsão de vida e de morte, lado a lado (ou, uma dentro da outra) que nos oferecem múltiplas semânticas contraditórias para encarar nossas experiências. De todo modo, nos cabe arcar com todos os repertórios que ousamos reproduzir e as lembranças que reinterpretam deliberadamente o vivido.

varanda. 2020, rua Leonardo Mota.

A casinha da rua Leonardo Mota, que foi morada-refúgio durante alguns longos meses, não me deu nenhum desses elementos necessários para superar nenhum acontecimento. Mas me garantiu, silenciosamente, acolhimento e respeito para lidar com meu tempo hoje e suas memórias, desse mesmo tempo. Um tipo de camaradagem revelada em outro código, um tanto novo pra mim. Um modo discreto, espaçoso, desapegado. Reconheci frestas de luz, refletidas no concreto amarelado, mas saídas do meu corpo, que alegraram genuinamente a caminhada e me mantiveram acesa. Foi tempo de lucidez e de cartas sobre a – minha – mesa. Enxergar meus furos mais de perto, de cabo a rabo, foi uma descoberta que me localizou entre o sofrimento e o prazer. Leio mentalmente Cândido aqui também, agora.

A curta citação me acompanha como um recurso pessoal de mediação entre mim, hoje, e meus passados. Me compromete comigo mesma, com meu presente que, por sua vez, deixou de ser presente nesse exato momento. Me compromete, portanto, com a totalidade de minha história e com a forma como quero conduzi-la cotidianamente. Alinhavo Cândido ao que arremata meu pensador favorito ao afirmar que “… aquele/Que não morou nunca em seus próprios abismos/Nem andou jamais em promiscuidade com os seus fantasmas/Não foi marcado/ Não será exposto/Às fraquezas, ao desalento, ao amor, ao poema. Se puder, lê de novo.

Há muita força nessas palavras. Desde 2014, carrego a potência e a beleza desses versos. Carrego, também, o peso dolorido que, por vezes, elas significam. São palavras que ganham vida e sentido de ser no desenrolar do percurso. Apenas quando tomo minha vida verdadeiramente para mim. Essa constatação empírica é incrível, apesar de assombrosa. Ela traduz um pouco sob quais condições eu poderia encontrar aquela parte fascinante da vida. Não esconde o ônus e demarca: é impossível sair ilesa quando se vive.

É como se ela dissesse que a gente precisa – permitir-se – abandonar um pouco de si para enxergamos melhor outras partes que estão lá dentro da gente (não, necessariamente, entendê-las). Para, pelo menos, conseguir se encarar… e seguir, com todos os pesos acomodados dentro da gente. Desse encontro consigo próprio, cada um faz o que quiser. Inclusive, nada fazer. As etapas passam. São todas provisórias. Perenes são suas memórias que parecem abrir as portas do próximo capítulo antes mesmo de estarmos preparadas para o passo seguinte.

Enquanto a vida segue, vou reafirmando a certeza de que é tudo temporário. Que memorar o passado importa. Reorganiza os espaços mais íntimos e, de uma forma bastante peculiar, abraça o coração. Ao mesmo tempo que esse afago no corpo apazigua a cabeça, me revela a sensação de que viver os ciclos do presente pode ser ainda mais fascinante. Muito pelo fato de que esse mesmo passado continua atuante, renovado, entranhado ao agora.

O que fica sempre é a torcida para o terreno ser fértil, firme. Mas não tão rígido a ponto de impedir o mínimo amortecimento das quedas que se avizinham sem aviso. Que venham mais portas, mais janelas para que eu possa entrar em contato com novos possíveis. Que o orgulho evapore e a pressão pela exatidão em tudo se desprenda de nós como quem abandona um falso amor atraente.

É do nosso chão, cheio de buracos e falhas, que nos levantamos. É através daquele mesmo recurso de exercício da humildade que vamos nos conduzindo corajosamente ao decidirmos nos reerguer. Ela nos ampara para a caminhada e nos leva adiante com mais leveza, sem esconder nenhuma marca, nenhuma pegada malfeita e intenção maldita – que já ficou naquela queda. Erguidas podemos observar o conteúdo que ficou, o desenho do que já realizamos. O que muda é a perspectiva e a certeza de novas possibilidades. Que esse caminho venha acompanhado de um pouco de sombra (em todas as interpretações cabíveis) e mais sol, muitos sóis.

Minha casa é esburacada e é só por causa dela, assim, que consigo garantir acesso às luzes e às danças bem dentro de mim, enquanto o dia vai sendo fiado em condições tão próprias da condição humana muito, muito <além do princípio do prazer> e socialmente esperado diante da nossa pequenez. Com as palavras desses artistas da palavra, eu vou. Comigo mesma, eu vou.

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