Eu danço

dançando. em 2019.

Os últimos dias dos últimos anos têm sido assintomáticos de tempo presente.

É estranho, parece que está tudo desordenado, atrasado diante de um cronograma imaginário. De repente, parece que o futuro também já ficou antigo e o hoje não é mais um agora. Mas a extensão de um cansaço velho, a repetição de ações já perdidas em si. Entendo a fragmentação artificial do tempo, os marcos, o cronológico e o cultural para que possamos acessá-lo minimamente. O que ocorre é que ele está dilacerado e tentar recompor as noções de contagem parece uma ansiedade fracassada desde o princípio.

A cabeça está cheia de ar. Andamos ariados do juízo. Perambulamos pelos mesmos lugares buscando um sentido para sentir o novo despontando daquele compartimento abafado que já não suporta mais nossos passos desnorteados.

O distanciamento físico não é mais evidente, apesar da sensação de que todos estão mofando em suas casas. O isolamento humano se aprofunda. Um perto-longe desolador. Um incômodo me orienta e, espantosamente, ele também se reconfigura como uma sensação já acomodada na rotina e, nesse ritmo, eu persisto em me perguntar sobre os mistérios que ainda rabiscamos em nossas trajetórias.

Muito do vivido é inexplicável e, por alguma boa razão nunca revelada, é também intangível pela ciência. O que escapa da teoria cartesiana deixa um gosto de insubmissão latente de desejo. E, como não poderia deixar de ser, de uma larga vulnerabilidade diante de tudo. Nesses últimos tempos de confusão mental e avesso social, como temos conseguido sustentar as demandas dos nossos desejos brutalmente reprimidos?

A abertura ao contato, a pele exposta, o toque ao alcance do tato de outras mãos. O tesão que estimula sujeitos ao encontro pelos cotidianos difusos de cada um faz garantir – em mim – a certeza de que saltar para a busca dos caminhos mais sigilosos de dentro de si (de dentro de mim mesma) é o que nos permeabiliza verdadeiramente ao outro. Esse salto tão vertical e íntimo não pode se perder.

Estar entregue ao estrangeiro que é o convívio com nossos ímpares sociais é experimentado no Real, justamente, porque as minhas próprias entranhas estão dispostas à descoberta impactante do mais subterrâneo que há em mim. Do mais amorfo que deseja ser revelado à medida em que sigo saltando para o silêncio que também me alicerça.

É nesse abismo assombroso e inaudível onde se elastecem os muitos saltos para dentro. Essas espécies de vísceras existenciais não querem mais ser tão estranhas assim dentro de si, no seu(meu!) mundinho funcional no qual, sabem, existem apenas porque se conectam a outras formações orgânicas que me definem enquanto matéria. A rede da existência é complexa a depender da sua posição e do quanto se está disposto a sustentar tal lugar.

O utilitarismo raso dos nossos interesses narcisistas não resiste ao lirismo do transcendental, do humano. Por isso, a urgência pela troca de relações de fora para fora e dentro para dentro é profunda. A pele e toda sua elaboração paradigmática biossocial divide e agrega corpos. Ela é o marco espacial e temporal nesse novo agora instaurado. Um corpo (nunca)todo que contrai e expande-se a outras redes de interações, outras matérias e afetos. Essa coreografia é revelada pela dança, inevitavelmente. Um dançar amador – com todos os significados que me abarcam nesse substantivo. O corpo inteiriço dança diante da inteligência subestimada das sensibilidades. Da fluidez ou rigidez que invocam o passo a seguir. Precisamos do outro porque precisamos de nós mesmos no dançar afetivo que todos carregamos – ora como peso, ora como desprendimento, como des-conhecimento ad infinitum.

O afeto é a dança se desprendendo de si e para si diante dos mundos de cada dia. É a ação sensível e disponível para esse exato mo(vi)mento que nos ocorre. A dança somos nós quando algum som escapa da nossa mecanicidade ressecada e faz reverberar o ímpeto de mover-se, de seguir. De deixar-se ir e de levar algo novo consigo ou de abandonar outro algo. O dançar – refinando-se como prática – pode ser uma espécie de passagem entre o que fomos e o que seremos (de) nós no instante seguinte, não num futuro. Um poder ser.

Ninguém nasce com o poder. Ele, o poder, é relacional. Como eu me relaciono comigo e com o mundo é um questionamento persistente. Qual o meu poder de Ser, portanto, diante de? A dança pode revelar.

O poder dos afetos pede pouco, mas não me parece fácil. Porque as relações não são herméticas, não são previsíveis. Por mais que tenhamos investido na feitura de listas e projetos durante uma vida inteira. A unidade entre a potência dos afetos e a presença de si para as relações construídas demonstra ser o conteúdo oculto que lubrifica nosso organismo para esse dançar e para, em fim, estabelecer relações autenticamente poderosas. Pois não se permitem à submissão de instituições e seus métodos coercitivos de relacionamentos que implicam, necessariamente, na perda da autonomia e do diálogo horizontal.

Dançar nesse mundo não é automático. Insinuar o contrário me parece rejeitar a realidade con-cre-ta da vida. O simples é difícil aos olhos ensinados a valorizar o artificial-programado, a produção calculada. E é assim, complexo, porque eu não posso, não quero dançar sozinha. Muito embora, saber viver uma dimensão de solidão cuidadosa seja edificante numa trajetória pessoal. Mas aí, já não estou mais só, eu sei. De todo modo, se eu danço sozinha como destino, ela – a dança – continua existindo isoladamente, mas não lhe parece uma dança iludida? Porque eu preciso das minhas outras partes, as conhecidas e as que insistirão em seguir inacessíveis e aí, eu já não me sinto mais só, porque estarei comigo mesma. Cindida, não toda, mas cercada de mim mesma. A solidão é uma ilusão bem nutrida. Terei a minha presença ativa, alimentada por essa expansão que me torna maior que eu mesma nesse corpo. Porque preciso do meu outro lado – de fora, que é dentro, também. Que é o Outro.

Dançar sozinha me diz de uma beleza que quer se revelar, me aponta para uma potência singular e me significa uma expressão genuína de resistência e de acolhimento ao envelhecimento. Há uma potência vigorosa no corpo que envelhece e decide resistir, dançando. Muito embora me pergunte, recorrentemente, até quando resistirei e, até quando, esse próprio resistir, enquanto ação e energia, resistirá à tirania assassina do capitalismo virtual, da indústria, da mercadoria, de cenas impessoais, da imagem como código de valor. Daquilo que amarra, controla e condiciona. Viver para resistir pode atrofiar a dança porque limita nossa existência ao fim do não-morrer massificado. Seca nossa liberdade. Dilui nossa esperança num devir derretido de enganações no e do presente. Dançar sozinha se for decisão de uma solitude consciente, não como imperativo metodológico de captura e de desistência de si ao click enganoso do tempo do instantâneo (muito diferente do tempo presente). Aí, então, é o belo manifestado no seu esplendor.

Se eu, se o meu eu <não puder dançar, não é minha revolução>.  

Eu consigo me sustentar na resistência, mas eu quero ser revolução. Eu quero aquela rede vibrando por todos os fios, pulsando, sentindo… afetando-se. Eu quero dançar e sentir a grandiosidade do tempo perpassando meus dias, minhas fases e ciclos. Enquanto teço narrativas que me direcionam ao futuro do presente que eu quero viver, quero perceber o corpo enrugando, viabilizando outras cadências exatamente porque o tempo está passando e, em sendo absorvido, me alimenta de mais tempo, mais lentidão e eu começo a me perceber sem tanta exaltação. Sem pressa. Eu passo a querer penetrar na experiência e não, apenas, passar por ela como quem espera algum reconhecimento.

A dança é um direito natural-fundamental, por assim dizer. É bem dizer uma experiência pela cura. Não sei se necessariamente ela se manifesta para curar. Mas o sentido passa por ela, como uma guia. Como um instrumento que se elabora com, sem forma precisa. Uma aliada de mim mesma, me ocorreu agora. Porque ela não é o fim… que me conduz a um destino. E não quero o fim dela. Ela se define quando é, no acontecimento do instante, na intenção que se transmuta num fazer. E esse fazer pela presença é ancestral. É esse modo de existir primeiro desde o ventre de alguém, como recorda minha memória mais antiga e criativa. Contorções, dobras, aberturas. “Debaixo d’água…todo dia”.

Eu quero “ser porque somos”. Essa possibilidade de reexistência nas coletividades elabora um repertório mais atraente de danças, corpos, calores que nos fazem inchar de vida. Ser enquanto podemos ser vida é o meu maior lampejo de resistência e que me faz mover para lugares desconhecidos, que existem e resistem dentro da minha morada. Fortalece se (me) perceber elaborando passos menos trêmulos enquanto desbravo o caminho de seguir rompendo fronteiras pelas quais a minha dança e meus quereres seriam domesticados violentamente. Através das quais meu tempo seria drenado para um fosso sujo e degradante de todos os tempos singulares que buscam seus próprios contornos e tentativas de individuação.

Sem fronteiras, defendo e busco apenas territórios vastos que sintam nossos rodopios, quedas e saltos entregues ao próximo ciclo de intenções físicas e mentais sem uma função específica – limitante – para um modo de produção utilitarista do sistema que nos aliena do Ser. Humanos permanecemos era após era. Importa sermos identificados com esse nome para o capital. Mas o ser…  Ah, o Ser precisa ser o que exatamente essa coisa – inconsciente – tão dispersa e curiosa quanto recalcada quiser. Que produz força, que alegra o corpo, que encoraja. Quanto mais envelheço, mais eu danço e são danças inéditas. Tenho amado sorver essa perspectiva de juventude que se perpetua internamente quanto mais eu me assumo nas minhas quedas.

Eu não quero que a minha coragem seja conduzida por modelos civilizatórios. Eu quero viver disposta, mas não para um fim. Eu quero o antes do fim, o antes do começo idealizado. Na escala da História na qual estamos abrigadas, somos a síntese massificada que se sustenta num entendimento reduzido a certezas, exatidão, precisão, e muita, muita etiqueta em nossas testas. Lattes em algumas, mural de redes sociais em outras, crachá de CEO, símbolo de juventude mística, quem sabe. Tem quem exalte a ridicularização de quem se rendeu a tudo isso. Não deixa de nos dizer algo. Filtros virtuais como nova maquiagem, ácido hialurônico, branqueadores de todo tipo para todas as partes do corpo. Seguidores(!), expectativas por comentários e elogios públicos. Nada pode envelhecer, amarelar. Nem os charmosos fios brancos, podem dar sua graça. Os dentes não podem desbotar. Se o movimento é sensual, também precisa ser misterioso para não vulgarizar. Tem de tudo. Para constar, tenho zero tendência para aceitar o natural do corpo de forma compulsória, afinal, tenho minhas questões, meus traumas. Mas defendo que respeitar e conhecer esse percurso do envelhecimento do corpo deve ser o “novo normal”, ou, pelo menos, uma alternativa. Uma postura carinhosa diante do corpo que me conduziu até aqui.

Toda organização social e intelectual precisa reverberar em “performance e resultado de alto impacto”. As vaidades nos testam cotidianamente. Todo o dia, sem pausa. Tudo precisa ser acelerado e o tempo para a dança se esvai. A tentativa vai ficando envergonhada e o Ser vai se amofinando.

Tentando pela via da sutileza, isso que pode ser a dança de um todo homogêneo, a dança que embala o corpo civilizado, aponta para um dançar orquestrado abusivamente e seus pés e coluna e pescoço e mãos humanas precisam se encaixar. Ao próximo segundo. Ao sistema. O espontâneo é perigoso. O autêntico pode ser descartado e o novo natural fabricado ocupa melhor esse vácuo da personalidade.

Recusar essa humanidade é o que me autoriza a rejeitar o método da economia da utilidade e da imagem tanto hiper focada quanto fugaz que me alheia do meu ser e do meu estar no mundo. Que ignora a minha dança e o meu corpo, agora, muito mais flácido e experiente.

Eu danço, essa é a minha resposta inesperada. Ao dançar, vou ao encontro do meu desconhecido e consigo transpor minha existência tão miúda e confusa para o outro lado do horizonte. Consigo irradiar minha presença e deixá-la em perspectiva ao Todo do mundo, comprometendo-me com esse laço que dança e gruda meu ritmo às vibrações do Universo.

Ainda não sucumbi. Sob quaisquer circunstâncias, eu danço e persistirei na busca pelas múltiplas possibilidades que permitam ressoar minha intranquilidade, práticas e discursos internalizados e abafados nos meus antigos porões, para outros conjuntos sensíveis de visão e de escuta. Que ressoem e escoem por outros tantos poros vivos.

Não me renderei. Dançarei ainda mais. Sorrindo para alguém ou de olhos fechados, fitando a mim mesma. Eu danço e priorizo ouvir minha respiração. Esse é meu tempo. E através dessa aprendizagem, um tanto intuitiva, seguirei me derramando por onde eu quiser passar, no meu passo. Eu danço. Isso, hoje, talvez seja meu maior privilégio. O de manifestar resistência na luta de persistir viver num outro campo de aberturas e interesses que não se vislumbra com enquadramento do certo e do errado. Um campo de acolhimento irrestrito motivado pelo respeito à formação do sujeito de cada um. Em terra onde só o indivíduo interessa, essas palavras podem ir contra o vento e eu nem sei.

Eu sei que danço. No enfrentamento, entre o que (ainda) sou e o que não quero ser, eu danço. Diante da hostilidade de um mundo que me obriga a reexistir (e resistir) por caminhos que eu nem sei se gostaria, eu danço. Eu danço me autorizando a, finalmente, conhecer meu corpo e todas as rugas, fendas e manchas que advém do uso dessa carcaça em experimentos miúdos, injustos ou felizes. Em experiências.

Mas, principalmente: diante do belo que somos capazes de construir, dos descaminhos que traçamos dia após dia, do divino que transcende de nós, da natureza indescritível que acorda diariamente em seu ciclo milenar, do desejo de desejar, da criança pulsante que habita (e resiste) em cada um de nós, eu danço. Eu danço como quem abraça a alegria e já não importa o lugar e o tempo. É novo ano. Diante dos novos inesperados e das novas recusas como referências de resistências, eu danço. Porque eu existo.

30 de dezembro – 27 de janeiro – bloco de notas do celular

[escrita feita na beirada do fim do ano. ainda era 2021 no primeiro parágrafo. tristeza por achismos de covids, confinamentos mil, em festa pelos bons que aparecem e resistem ao seu lado. o envelhecimento fica mais agudo e essa constatação me diz muito. permaneço em escuta. eu só posso dançar e essa saída é a melhor rota que eu consigo pensar até hoje.]

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