Tem pitaya no quintal, mas não é uma boa hora pra falar sobre isso

disseram que tem hora ideal pra postar foto. ganhar like. mas se não tiver sua cara em foco, esquece. tem a opção de lacrar com uma boa piada, reflexão social, crítica da crítica. dizer pro mundo que a gente tá atenta a tudo tem hora, literalmente. é tempo de disputar as redes. com o manual deles, ainda. paciência. enquanto isso, a rede mais gostosa fica pendurada o final de semana inteiro. vou me balançar? selfie com ótima resolução, porque, né! tem que ter galeria pro tbt. sujeites neoliberais é o que somos.

aqui e aí. no feed ou na madrugada insone. alguma fração nossa responde e se reorienta integralmente aos comandos hegemônicos. a gente se rejeita nessa constatação. como (se) romper? fiscalizar é o novo normal. muito embora a gente sequer consiga se nomear, nos afogamos numa necessidade – previamente articulada por aquela hegemonia – de etiquetar e carimbar algum prazo de validade no outro, algum pecado capital. tudo é prioridade na luta, só não mexa nos meus “inimigos internos” que aí já estão pedindo demais. revolução molecular’ é pós-moderno. eu considero hiper-moderno. tô sugada por essa tendência algorítmica filosófica. e quero saber qual a sua. a gente sempre precisa saber algum detalhe do outro. mas me diz, o que tem de mais estrutural que uma molécula? vamos pensar numa roda de conversa… híbrida? mas só depois, no outro ano. janeiro. “ninguém faz nada antes do carnaval”. será que é por isso que eu amo carnavais? hoje, rolou uma pitaya aqui e eu tô amostrada. só tô escrevendo e querendo postar esse mais-do-mesmo-sacal porque são 10h da manhã, bicho. recesso oficial, o filho dorme no meu peito e não é porque eu acho lindo. é que ele acorda no balançado desesperado meu. tô cada vez mais puta com essa farsa de teoria da criação com apego. com a persistência da colonização de tudo.  ainda pode escrever palavrão?

é que hoje, rolou uma pitaya no quintal! combinação ideal de não dá pra estudar + eu tô exibida. e não sei o que fazer.

primeira pitaya do meu quintal. 2022

dói, é difícil, mas importa sentirafirmar, enquanto prática, já que ela é mesmo o critério da verdade, essa postura de que, amor só presta se for camaradagem. solidário. sem nenhuma exclusividade. amor que, de preferência, dê planta. planta no quintal e eu tô toda sorridente. a roda da vida tá diferente, acelerada, não envelhece como antes. envelhece, mas ninguém vê direito. ninguém dá conta do novo ritmo. mesmo que desconfigurada, a engenharia, aquela base, sabe, é a mesma das gerações passadas. assusta um pouco se perceber nessa mesma engrenagem.

séc xxi, big data, desconstrução até o pescoço (socorro!), abstrações, e aquele refrão famoso do bigodudo. toca belchior, tá tudo ali. aquele contexto familiar tradicional, repetições, identificações e uma conjuntura política invariavelmente desoladora. alguma página perdida do livro das revoluções conecta esse tudo ao todo de todo mundo e isso é de uma potência emocionante demais. é possível – porque é bom e justo – conjugar esperança. a gente merece um outro mundo de possibilidades pra ontem. a gente quer viver o ontem de novo, no nosso corpo, como quem tenta garantir o direito ao tempo individual, aquela lentidão descompromissada, sem julgamento cristão, nem ateu. essa coisa do tempo, o capitalismo não autoriza individualizar. nunca será nosso. e é essa realidade experimentada diariamente que não pode ser normalizada. eu tô falando isso e querendo caçar alguma culpazinha por estar aqui, afundada numa rede, sem fazer nada. mas é tão bom fazer algo que significa nada pro pensamento burguês. ser um pouco o vagabundo (no masculino mesmo), o procrastinador inútil que não rende como a média das estatísticas dos bons trabalhadores workaholics ideais.  a gente merece mais disso. e frutinha cortada na geladeira por algum amor. a gente merece vida digna e algum modo de liberdade pra nos amparar no desconhecido que é o futuro. e vadiagem no fim do dia. cervejar, dançar, suar até o anoitecer. ou até o começo do dia, não tem problema. como sou, particularmente, muito amiga do fim, de manhã, eu quero saber da ressaca do povo, rir das fofocas enquanto martín leva mais uma queda antes das 11h, enquanto o almoço continua congelado. que merda.

a hora é péssima, meu coração já acelerou. mas quero dividir essa obviedade. tô aqui. viva e querendo mais, exatamente porque, nesse instante, sinto como se não estivesse me rendendo ao tempo da produção. quero mais transgressão, punho cerrado, claro que quero. mas tem que olhar o quintal da gente vez em quando também. senão, perde sentido, apodrece tudo. quero a máxima do quanto mais tranquilo, melhor. fugindo do pragmatismo viciante sempre que puder. mas nem sempre eu quero, tá? esse ano eu aprendi quase nada. não deu tempo. as coisas se arrastam ou passam me arrastando sem eu sequer saber a velocidade. num segundo, já dissipo uma possível nova crise. como eu disse, não dá tempo pra mais nada. e eu não quero mais aplaudir o sofrimento desnecessário. a gente não precisava de nada disso. essa felicidade compulsória, o laço com as lamentações eternas. a gente precisa é de viver. sobreviver tem limite e o limite já tá gritando faz tempo pra cada um de nós. a gente precisa é de um tempo pra chamar de meu e amores pra chamar de nosso. como que faz isso? ficou pra quando aquela reunião? vamos colocar isso na primeira pauta, que é quando tem mais gente, não vacila! vamos tentar?

esse texto contém confusão, contradição e amor em construção. nada menos que o espelho embaçado de quem o escreve. a hora é bem ruim, mas se eu postar no instagram, me dá um like?

  • É preciso agradecer. Ser grata pelas existências que nos sustentam. Corpos, conversas, silêncios, leituras, sons, música. Muita música. Gente. Não tem muita gente. Mas pessoa de carne e sangue quente. Brigada bell. Brigada Bel, mães parceiras. Brigada, jannan.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: