Arrebentação pessoal

De quando o mar te inunda e isso quer dizer alguma coisa.

A arrebentação é aqui dentro e ninguém percebe. Porque não precisa. Física nenhuma consegue explicar. Com toda sua expressão de potência e de entrega apaixonada ao Universo, a arrebentação nos arranca um suspiro de descanso após o tom dramático gerado pelo fim de um acontecimento valioso. É avassalador o quebrar das ondas, na mesma intensidade que é vagaroso o seu partir. Nesse movimento, nem tudo se esvai.

Arte da Fernanda Meireles – lojasemparedes

Alguma coisa misturada à areia molhada e deformada pelo impacto da onda, agora morta, permanece espontaneamente. São restos de onda. São fragmentos cintilantes realmente minúsculos que podem, facilmente, passar despercebidos pelos olhos e pés pouco treinados. Paradoxalmente, essas mesmas partículas não podem ser arrastadas pela força descomunal que o mar é capaz de produzir. Talvez, pra dizer – pela linguagem cortante da natureza – que pouca coisa importa de verdade. Ou, que é a miudeza das relações que mais nos interessa para modular nossa subjetividade e marcar nossas experiências.

Contemplar silenciosamente a grandeza das ondas, acalanta o espírito. É refúgio natural de qualquer vivente humano. Mas é sabido que ganhamos outras bonitezas quando, com uma boa dose de disposição e desprendimento, aprumamos nossa postura para observar o entorno do mar depois da agitação. O mistério vive distante do centro onde, supostamente, tudo acontece. Tem que se ver as bordas, o que escorre do aparente eixo e costura-se a outras edificações. A fusão é potente, ainda que confusa, tantas, tantas vezes. Isso diz muito de uma sabedoria transcendental que parece calcular, noutra matemática, as sobras e as faltas da nossa presença no mundo. O desafio, ouvi falar, é permitir-se ao arrebatamento em cada ação. Em cada interesse e desinteresse, cada encontro e despedida. Aos poucos, a gente se joga. E recua um pouco, esperando a próxima onda. E a próxima. E aprende. Pula e espera que o corpo, inteiro imerso n’água, ganhe mais consciência dos seus movimentos possíveis, dos mais articulados aos mais sutis. Consciência suficiente para que, segundos antes de emergir da maré, a gente decida o que consegue deixar de si naquela areia encharcada… e quase sufocada. Porque as ondas não param pra que a gente descanse. Quem escolhe e media com a vida mais íntima para garantir os respiros, somos nós. Ninguém mais, não tem jeito. A travessia é toda aqui dentro. [m./2015]

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: