loucura (d)e amor

…<Um descanso na loucura>, diria o poeta. A gente encontra amor entre as correrias do dia. Num instante vivo e divulgado numa fotografia em preto e branco, que parece fazer eternizar ainda mais aquele segundo clicado. Encontra justamente naqueles instantes em que a gente não sabe que serão capturados pela memória. O problema é que a gente tem pouco tempo pros instantes. O assombramento do mundo cru carece de mais tempo para ser reverenciado. Ou digerido. Respeitado. Nossa vida bem que merecia ser mais vagarosa e suave, ainda que cercada de imposições. Apesar daquilo que está acima de nós e nos imobiliza. Adoece e nos mata aos poucos sem, sequer, percebermos o tamanho do estrago feito. Poderíamos tentar ser menos e mais no modo tudo-junto-e-misturado. Mais ambivalentes. Afinal, é o que somos. Menos certos. Há certezas? Prefiro a dúvida, os buracos mais inóspitos que nos convidam à investigação cotidiana do nosso fazer histórico. Sigo atenta à fotografia das crianças brincando na samaúma amazônica que me fez sorrir. Imaginação corre solta e me joga para outros instantes, assim como fizeram essas crianças ao tocar a árvore. Transformando, num instante, vontade em ação; movimento em pausa. Lembro do dizer de Rosa sobre o amor e venho escrever todas essas palavras. Os quereres rondam e pisam em terra que parecia sólida, mas o chão é frágil. Absorve tudo e devolve – quase – tudo de volta, também. Na troca, encontramos amores de variadas nascentes que se espraiam no desconhecido de sua correnteza. Amor amolece a carne. Reorienta o fluxo daquilo que interessa, sem tempo para ouvir nossa permissão. Basta sua presença para alterar a cena inteira. Aceitar a impermanência como premissa para qualquer encontro de vida parece ser o único acordo possível, mais duradouro e coerente, nesse percurso. É o que está fora de controle que nos garante experiências menos previsíveis. É quando estamos diante da ausência desse poder que escolhemos, genuinamente, recusar ou adentrar nas possibilidades mais surpreendentes de gozo. Positivas ou não. Grandiosas ou não. Nesse instante, o impermanente cumpre sua função luminosa de complexificar o curso da história porque nos apresenta às im-possibilidades de vida. Lamento que a tendência seja apegar-se à palavra permanência como se ela fosse romanticamente grandiosa por si só. Tem a ver com semântica, mas é para além de interpretação linguística. A despeito de toda beleza que algumas permanências mais abstratas conseguem abarcar, tendemos à proeza de querer e tentar encaixar tudo dentro de algum lugar. Numa caixa, talvez? Ou numa estante?! Aparentemente confortável. Porém, muito bem vedado ou bonitamente exposto na sala de estar. Todo esse apego para nos orgulharmos de ter alguma relação, ou alguém permanentemente em nossas vidas. É um fim um tanto trágico reduzir a vida ao sentido estático que a permanência compulsória pode oferecer. Impede a expansão do sentido das coisas e do espírito. Repercute nos desdobramentos das nossas escolhas futuras de forma precisa e irreversível. É que nos apegamos às verdades que a gente, individualmente, cria e cuida como um bichinho domesticado. Acalma o juízo, a gente sabe. Mas não se sustenta. A gente também sabe. Se o caminho é criar novas e maiores caixas, com tampas mais discretas e leves ou, estantes mais despojadas para despistar a natureza exibicionista do objeto, então, provavelmente, a gente discorda do amor. Seriam muitos amores para guardar. Eles vazam da caixa, despencam das prateleiras e já são outros no segundo que escorrem, tocam e ocupam novos espaços. Penso que o amor não é permanente, nem conseguiria. Que amar exige um elevado grau de fluidez do corpo sutil. Amor é aposta. É experiência falível, móvel. É absolutamente transitório, assim como é quem ama. É o movimento possível. Amor é o que não se sabe. E assim precisa ser. Sem precisão. Porque é descanso na loucura, afinal. Bem dentro dela. Talvez, nos caiba apenas sentir esse lugar. Porque é lá que ele está. Protegido de qualquer explicação lógica universal. Pronto para ser sorvido, ou tragado. Pronto para brincar ou jogar com qualquer um que se renda à loucura e, nela, faça seu instante de paragem. Quiçá, morada provisória (no máximo). Com sorte, lá dentro, conseguimos ser salvos, vez ou outra, de todo o resto que a humanidade consegue impor – e encaixotar – sobre ela mesma.

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Mar/2015. Imersa na repetição que é a tragédia que vivemos no Brasil, senti vontade de me voltar a esse texto e pensar em questões outras que não nesse imenso presente. Vontade de compartilhar um pouco daquilo que ainda não conseguimos aniquilar – a loucura e o amor.

Uma resposta para “loucura (d)e amor”.

  1. Que achado. Obg pela força desse texto logo cedo do dia.
    São muitas as impermanências

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